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Plano 15: entidades analisam propostas para o turismo

Uma das propostas era criar o Fundo Municipal do Turismo, mas cinco anos após as eleições de 2012, a medida ainda está em avaliação

O turismo em Joinville é o assunto da quinta reportagem da série “Plano 15”, que discute a execução das propostas de campanha feitas por Udo Döhler em 2012. Naquele ano, o candidato do PMDB elencou oito ações em relação ao tema.

– Faremos Joinville voltar a ser o principal pólo de turismo de eventos de Santa Catarina, fortalecendo o Convention Bureau

Giorgio Augusto Souza, executivo do Joinville Convention & Visitors Bureau, explica que a entidade trabalha com um tripé para captar eventos para a cidade baseado na facilidade de acesso ao município, na oferta de hospedagem e nos espaços para receber eventos. “Por mais que tenha um número reduzido de voos, temos outros aeroportos por perto, então isso não seria um problema. Na questão de hospedagem, temos hoje 6,2 mil leitos disponíveis, e vários espaços para receber eventos na cidade”, avalia. No entanto, o tripé se baseia na iniciativa privada e, para Giorgio, o poder público é fundamental para fortalecer o turismo de eventos em Joinville. “Precisamos do poder público para criar um ambiente favorável. A gente precisa ter suporte do governo para tornar a cidade mais competitiva. Ela tem um caráter industrial, mas precisa desenvolver, ter essa visão do turismo como movimento econômico”, explica.

Para ele, o projeto de lei enviado pelo executivo à Câmara de Vereadores que pretende reduzir a alíquota do ISS (Imposto Sobre Serviços) de 5% para 2% às empresas organizadoras de eventos é um avanço e atende a uma demanda antiga do setor. Porém, são necessárias outras ações para estimular o turismo de eventos na cidade, segundo Giorgio. “A questão do ISS demonstra que a prefeitura entende essa visão, mas eu percebo que, pontualmente, existem organizadores de eventos falando que em Joinville há muita burocracia, que as coisas estão amarradas. Então a cidade acaba sendo tachada como um lugar difícil de fazer as coisas acontecem”, revela. Para o executivo, ações como a criação de um fluxograma que oriente os organizadores sobre o que é necessário para produzir um evento na cidade seriam um “grande avanço”. “A cidade precisa ser conhecida. Existe iniciativa, mas é muito tímida”, analisa Giorgio.

– Melhoraremos as estruturas dos equipamentos públicos (Expocentro Edmundo Doubrawa, Centreventos Cau Hansen e outros)

De acordo com a prefeitura de Joinville, que respondeu às solicitações da reportagem por e-mail, durante o primeiro mandato foi realizado o projeto de elétrica para a climatização do Centreventos Cau Hansen com a aquisição de um gerador de energia. Além disso, foram realizadas melhorias nos hidrantes e a sinalização de saídas de emergência atendendo às novas exigências do Corpo de Bombeiros.

Segundo o executivo, ainda há a intenção de concluir o projeto original do Centreventos, mas a ação depende de recursos.

– Fortaleceremos o ecoturismo e o turismo rural

De acordo com a prefeitura, o principal incentivo ao turismo rural em Joinville foi o fortalecimento do projeto Viva Ciranda, programa de turismo pedagógico criado em 2011 e que leva alunos de escolas municipais para conhecer as propriedades rurais cadastradas por uma taxa de visitação de R$ 10 por pessoa. Desde 2013, conforme o executivo, três ônibus foram doados ao município para fazer o deslocamento dos estudantes e o programa também auxilia os proprietários no desenvolvimento de atividades e melhorias para bem receber os visitantes.

Para Tarciso Jannig, dono de uma propriedade rural que participa do Viva Ciranda, o projeto “não tem sustentação futura”. Além disso, segundo ele, este é o único incentivo do executivo municipal ao turismo rural em Joinville. “No primeiro mandato a gente não sentiu nada de melhoria e, no segundo, só temos compromissos, mas até agora não melhorou nada. Continuamos com a mesma promessa de cinco anos atrás de que teríamos sinalização turística, mas continuamos sem nada”, avalia. “Não se pode falar em turismo sem a sinalização adequada e não se pode falar que Joinville é referência em turismo rural se sequer temos a sinalização turística para o visitante encontrar as diversas opções no entorno da cidade”, completa. Para ele, a gestão também falha em não fazer a manutenção das estradas que dão acesso às propriedades e não investir na iluminação pública nestas localidades.

Samir Migdady, presidente da Aterj (Associação de Turismo Eco Rural de Joinville) e dono de uma propriedade rural, concorda com Tarciso. “Nos primeiros quatro anos não tivemos incentivo nenhum. A única coisa é o programa de turismo pedagógico, que é uma coisa que já existia. As reivindicações são as que sempre tivemos, como pavimentação melhor das ruas, com o patrolamento, iluminação publicada adequada, telefonia e internet”, explica. “Na reeleição, temos um documento assinado pelo prefeito para que ele revisse e nos ajudasse nesses itens, mas eu te diria que com ou sem documento não resolveu nada. Continuamos com apoio zero”, completa. Tarciso e Samir contam que as propriedades não contam com sistema adequado de telefonia e o acesso à internet é ainda mais difícil.

Para Samir, a prefeitura poderia investir em projetos para arrecadar recursos estaduais e federais para o turismo em Joinville. “Hoje a pessoa que trabalha com turismo na área rural faz tudo sozinho, não tem apoio. Tudo o que tem pra oferecer ao turista é de empenho, vontade própria. E a gente sabe que existem vários projetos que os governos estadual e federal disponibilizam e que a prefeitura poderia viabilizar, mas a visão de acreditar no turismo é muito ruim aqui na cidade”, analisa. “O que se divulga, de que Joinville é exemplo no turismo rural, é balela. Nós brigamos pelo turismo rural sozinhos. Com as belezas naturais que nós temos, se tivéssemos apoio, um olhar positivo, Joinville seria exemplo de turismo rural no Brasil, mas hoje não é”, completa Samir.

Projeto Viva Ciranda leva estudantes para conhecer propriedades rurais – Divulgação/Paralelo

Segundo o executivo, um projeto para a instalação de pórticos na área rural foi aprovado e eles devem ser implantados em breve. Ainda conforme a prefeitura, o projeto de Cicloturismo, desenvolvido em parceria com o grupo Pedala Joinville, passa pelas regiões do turismo rural para desenvolver essas rotas.

– Apoiaremos todos os eventos que constituem as festas tradicionais, como a Festa das Flores e a Festa da Solidariedade

Os dois exemplos citados pela proposta tiveram destinos diferentes nos últimos anos. Enquanto a Festa das Flores chega a 79ª edição em 2017, a Festa da Solidariedade teve seu último encontro em 2013.

Para James Hasselmann, presidente da Ajao (Agremiação Joinvilense de Amadores de Orquídeas), entidade que promove a Festa das Flores, o apoio do executivo municipal é importante e o evento seria inviável sem ele. “A gente gostaria de alguns recursos a mais, mas consideramos que é bom. Não existe mais o subsídio, mas eles ajudam com o espaço, a segurança e a divulgação do evento”, explica James.

De acordo com a prefeitura, o município tem direito a 30 dias de uso da Expoville por ano – o espaço é administrado em parceria público-privada – dos quais 19 foram cedidos por ano à Festa das Flores sem custos nos últimos quatro anos. Além disso, em 2013 e 2014 a Ajao recebeu R$ 600 mil do poder executivo por meio de subvenção (forma de repasse a entidades sem fins lucrativos).

Já a Festa da Solidariedade, que reunia mais de 50 entidades assistenciais filiadas à Ajos (Associação Joinvilense de Obras Sociais), organizadora do evento, nunca recebeu recursos do poder público municipal, segundo a vice-presidente da entidade, Aurélia Maria Silvy. “O governo municipal cedia o espaço na Expoville, essa era a contribuição, mas verba específica não”, conta Aurélia. Em 2014, com o local garantido, mas sem recursos, a 21ª edição da festa não aconteceu. “Nós tínhamos mais de 50 entidades filiadas e a festa era esperada pela cidade inteira, mais ainda pelas entidades porque era uma forma de ter retorno e se manter por três, quatro, até seis meses com a venda que faziam”, relembra a vice-presidente.

A Ajidevi (Associação Joinvilense para Integração dos Deficientes Visuais) era uma das entidades que participavam da Festa da Solidariedade e conseguiam alguma renda para ajudar a manter o atendimento no lugar. “O último evento faturou R$ 20 mil e essa era a garantia da sobrevivência da instituição no final do ano, pagava o salário dos funcionários e as despesas do dia a dia. Com o fim da festa, as entidades tiveram que se reinventar, captar recursos de outra maneira, e esse recurso financeiro faz falta pra gente”, fala Paulo Sérgio Suldovski, presidente da Ajidevi.

Para Aurélia, a possibilidade de voltar a promover a Festa da Solidariedade é remota. “Nós lamentamos muito porque trabalhávamos seis meses em função desta festa, mas sem dinheiro não se consegue fazer nada”, diz.

Festa das Flores chega a 79ª edição em 2017 – Divulgação/Paralelo

A prefeitura informou que os principais eventos apoiados pela Secretaria de Cultura e Turismo são a Festa das Flores, a Feira do Livro e o Festival de Dança, em que “o apoio se dá em forma de trabalho da equipe de eventos da secretaria, que auxilia na organização, liberações, documentos e divulgação dos eventos”. Além disso, a pasta também organiza a Feira do Príncipe e o Sábado na Estação e apoia “eventos que têm cunho cultural ou artístico no município, quer seja por meio da equipe de eventos, com auxílio na documentação legal para o evento, ou através de auxílio para que o produtor possa ter seu evento com sucesso na cidade”, como as festas regionais, e disponibiliza recursos por meio do Simdec (Sistema Municipal de Desenvolvimento pela Cultura).

– Lutaremos pela ampliação da malha aérea, com maior oferta de voos

Segundo dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), atualmente, os voos com origem em Joinville partem regularmente para Campinas, Guarulhos e Congonhas, gerenciados por três companhias aéreas que, eventualmente, também operam decolagens para outras cidades, mas com periodicidade muito menor (um ou dois por ano, enquanto os para Guarulhos, por exemplo somam, no mínimo, 300 decolagens anuais).

Em 2012 e 2013, no entanto, Joinville contava com outros dois destinos, Criciúma e Porto Alegre, operados pela empresa Trip que deu início ao processo de fusão com a Azul em 2012. Com isso, Joinville perdeu os voos regulares para Criciúma e Porto Alegre operados pela empresa – em 2015 a Azul ainda operava voos regulares à capital gaúcha.

Hoje, o aeroporto de Joinville recebe voos com origem em Campinas e Congonhas. Até o ano passado, era ponto de chegada de passageiros vindos de Guarulhos, e em 2013, também recebeu passageiros de Criciúma e Porto Alegre regularmente.

Neste mês, a prefeitura de Joinville anunciou que a empresa Passaredo deve operar voos diários entre a cidade catarinense e Guarulhos, em São Paulo. A operação, no entanto, depende da autorização da Anac.

– Faremos com que o Complexo Expoville/Megacentro seja dotado de moderno centro de convenções para que Joinville receba congressos e feiras nacionais e internacionais

Desde 2012, o complexo da Expoville é administrado pelo consórcio Viseu-Vaex, que venceu processo licitatório para gerenciar o espaço pelos próximos 25 anos. Em contrapartida, a organização deve investir, no mínimo, R$ 34,25 milhões em reformas e melhorias no complexo.

A reportagem procurou a administração da Expoville para discutir as obras e o potencial turístico do local, mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta.

– Criaremos o Fundo Municipal de Turismo

Durante o primeiro mandato, esta proposta não foi efetivada. Por e-mail, a assessoria de comunicação da prefeitura disse que a criação do fundo ainda está em avaliação.

– Valorizaremos e difundiremos a marca “Joinville”

De acordo com o executivo municipal, desde 2013, primeiro ano do mandato, Joinville voltou a participar de eventos turísticos nacionais levando a equipe de turismo e eventos da secretaria para conversar com agentes, agências e operadoras do turismo nacional, além dos próprios turistas. Nestes eventos, segundo a prefeitura, são distribuídos materiais de divulgação do município e releases para a imprensa.

Outra ação, conforme o executivo, é o convite a jornalistas especializados em turismo para conhecer os atrativos da cidade, “o que repercute imediatamente em matérias nos principais veículos nacionais com a marca ‘Joinville’”.

Para Guilherme Kulkamp, vice-presidente do Viva Bem – Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Joinville e Região, o turismo no município tem melhorado, mas ainda precisa se desenvolver. “A gente percebe que os investimentos no turismo poderiam ser melhores, a força da categoria poderia ser mais reconhecida. Joinville tem equipamentos para a realização de eventos, hotelaria de primeira linha com grandes redes, gastronomia farta com várias opções culturais, um mercado interessante para focar em turismo de negócios, mas ainda é muito acanhado, tem muito a melhorar e se estruturar”, analisa.

Para ele, é necessário fortalecer a captação de eventos no turismo de negócios e, no turismo de lazer, manter os museus abertos nos fins de semana (o do Sambaqui atende de segunda a sexta), melhorar a estrutura dos pontos turísticos e dos postos de atendimento ao turista, para que estejam abertos e tenham pessoal e material pra divulgar a cidade. “Os postos funcionam, mas poderiam ser melhores. Poderiam fechar mais tarde no horário de verão e, às vezes, não tem ninguém ali pra ‘vender’ Joinville como destino”, diz Guilherme.

A categorização dos municípios das regiões turísticas do Mapa do Turismo Brasileiro, elaborada pelo Ministério do Turismo para identificar o desempenho da economia do setor nos municípios, enquadrou Joinville na categoria B (a categoria A é para municípios com melhor desempenho e E com o pior). O resultado parte da análise do número de empregos formais no setor de hospedagem, número de estabelecimentos formais cuja principal atividade é a hospedagem e as estimativas de fluxo de turistas domésticos e internacionais.

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