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“Eles falaram que iriam matar meu guri e mataram”, diz pai de homem morto em ação da PM e Guarda Municipal

Leandro Wisbecki foi morto na tarde de segunda-feira (18) e, de acordo com testemunhas, foi atingido por pelo menos seis disparos no quintal da própria casa

A bíblia manchada de sangue é guardada com um misto de carinho e indignação em uma casa do bairro Iririú, zona Leste de Joinville. Foi no quintal da casa da família que o filho caçula, Leandro Wisbecki, de 32 anos, foi morto, de acordo com testemunhas, com disparos que partiram de armas da Guarda Municipal e da Polícia Militar. A Guarda Municipal de Joinville passou a utilizar armas de fogo em julho de 2015. À época, o então secretário de Proteção Civil e Segurança Pública de Joinville ressaltou a importância do porte de armas aos agentes, “mas que ninguém precise usá-las”, afirmou. De acordo com uma testemunha, um dos agentes não apenas a utilizou como foi o responsável por disparos no peito que mataram o filho do aposentado Malvo Wisbecki na última segunda-feira (18). “Estavam em oito, nove pessoas e não deram conta de imobilizar um? Eles executaram o meu guri aqui no meu quintal”, lamenta enquanto aponta para o local exato em que o corpo do filho tombou, já sem vida.

Bíblia que Leandro segurava instantes antes de ser morto – Adrieli Evarini/Paralelo

Juliana* que acompanhou toda a movimentação na casa dos Wisbecki contou ao Paralelo que Leandro foi atingido por pelo menos seis disparos. “Eu vi quando atiraram no braço dele e o braço já meio que caiu para o lado, poderiam ter imobilizado ele. Depois, o guarda municipal, não sei se se desequilibrou, mas caiu aqui [aponta para o canteiro] e quando foi caindo já foi atirando no peito dele. E atrás tinha uma policial atirando também, nas costas. Eu vi uns três tiros, aí me abaixei e só escutei os outros disparos”, diz.

Devastado e tendo que enterrar o caçula de três filhos, Malvo, hoje aos 69 anos, tem a responsabilidade de criar as duas netas que viram o pai pela última vez na terça-feira, dentro de um caixão. “Olha aqui, elas são muito boas na escola, ganharam até honra ao mérito, olha só”, conta enquanto mostra boletins e homenagens de honra ao mérito e menção honrosa das netas de apenas oito anos.

Aposentado por uma grande indústria joinvilense, o pai conta que Leandro era usuário de drogas e, no momento em que os pais acionaram o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), Leandro estava sob o efeito delas, tanto que tentava “raspar” uma tatuagem do braço com uma faca de cozinha. “A gente chamou porque ele precisava de ajuda, ele estava chamando a atenção, estava pedindo ajuda”, reforça. Pouco mais de 24 horas antes, na madrugada de domingo, o pai levou o filho ao Hospital Regional Hans Dieter Schmidt, onde foi medicado e liberado. Malvo conta ainda que Leandro chegou a ser internado em uma clínica de reabilitação em Araquari, onde permaneceu durante três meses. “Ele usava sim, maconha e cocaína, mas ele nunca agrediu ninguém, nunca fez nada de mal pra ninguém, muito pelo contrário, ele era capaz de tirar a camisa do corpo e dar pra alguém se fosse necessário”, lembra. Para o pai, a dependência do filho não é justificativa para a conduta adotada pela Guarda Municipal e Polícia Militar. “O Samu chamou eles porque ele estava com uma faca, mas era pra ajudar, não pra matar”, ressalta. Com a chegada da polícia e da Guarda Municipal, o aposentado conta que os atendentes do Samu direcionaram ele e a esposa, mãe de Leandro, Maria Solange Wisbecki, para dentro da ambulância e fecharam as portas. “A gente foi achando que ele iria conosco para o hospital, o PA, algum lugar, mas trancaram a gente para matar nosso filho”, dispara.

Entre os pertences que Leandro usava no momento em que foi morto, um pedaço de osso que, segundo Malvo, se desprendeu do braço do filho após receber um dos disparos – Adrieli Evarini/Paralelo

De dentro da ambulância em que acreditava ver o filho ser encaminhado a uma unidade hospitalar, Malvo ouviu os disparos que já teriam sido anunciados antes. “Eles falaram: vamos fazer nosso serviço, se não conseguirmos conter, vamos atirar. Eles falaram que iriam matar meu guri e mataram”, indigna-se.

Sem conseguir ver como o caso se desenrolou, Malvo tem o relato de pessoas que se aglomeraram ao redor da casa assim que viram Leandro se mutilando no quintal e em frente à residência da família. Juliana é uma delas e conta que o filho do aposentado levou tiros de taser – pistola de choque – que não foram suficientes para acalmá-lo. Ao receber os choques, Leandro, já cercado por guardas e policiais teria tentado se defender com a faca com que se mutilava minutos antes e, foi neste momento, que os tiros começaram a ser disparados, segundo a testemunha. “Eles poderiam ter se jogado em cima dele e não fizeram isso. Eu acho que foi uma covardia e a queima roupa. Eu vi a cena dele virando de lado na hora que levou o tiro no braço, era como se estivesse me pedindo socorro. A cena era como se ele estivesse pedindo socorro e não tinha ninguém pra defender ele”, lamenta Juliana. Ainda de acordo com ela, diversas pessoas que estavam no local foram coagidas a não realizar qualquer tipo de imagem do local. “Eles mandaram todo mundo sair que não era pra filmar, não era pra fazer nada”, completa. Pelo menos um dos disparos chegou a atingir o carro da família que estava estacionado mais à frente. “O carro também representava risco? Eles não sabiam o que estavam fazendo. Eles executaram o meu filho”, completa Malvo.

Com o encaminhamento para tratamento médico no Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) já em mãos, o pai levaria Leandro na tarde de segunda para o primeiro atendimento, mas não teve tempo. “Olha aqui o que fizeram com o meu filho, o tiro no braço chegou a tirar um pedaço de osso dele, nós que encontramos depois. Acha que depois de levar um tiro desse ele não poderia ser rendido? Precisava matar meu guri?”, questiona enquanto mostra os pertences do filho. Nas mãos de Malvo, o chinelo mutilado pela arma de taser é uma das lembranças daquela tarde que ficarão na memória do aposentado. “Esse boné ele estava usando no dia, olha o chinelo aqui como ficou, tem até pedaço de pele dele. Eu chamei para ajudar, ele precisava de ajuda, ele não estava pedindo para ser morto”, lamenta.

Disparos também acertaram o carro da família, que estava estacionado à frente do local em que Leandro caiu morto após receber os disparos – Adrieli Evarini/Paralelo

Amigo de infância, Márcio da Silva Duarte passou a ser também vizinho há cerca de quatro meses. Foi a esposa dele a responsável por levar as filhas gêmeas de Leandro ao parque assim que ele começou a ficar descontrolado e a se machucar. “Eles deveriam servir para proteger e não para matar. Ele só precisava de ajuda”, reforça.

Trabalhando no momento em que o irmão era alvejado no quintal de casa, Edson Wisbecki, irmão de Leandro, não se conforma com a brutalidade com a qual o irmão foi tratado na própria casa. “Isso foi uma brutalidade, se eu estivesse em casa isso não teria acontecido. O que fizeram com o meu irmão tem nome e foi um massacre”, diz. “Eu, com 69 anos, se não estou preso dentro daquela ambulância, eu tirava a faca dele, nem que eu pegasse esse sarrafo aqui e desse nas pernas dele, quebrasse as pernas então, mas não matasse”, completa o pai.

Responsável pela liberação do corpo do irmão mais novo, Sandro Malvo Wisbecki, o irmão mais velho, não estava em casa no momento em que tudo aconteceu e questiona o preparo da polícia e da Guarda Municipal ao lidar com o irmão, que sofria de transtornos mentais. “Pra mim foi um choque, a ficha ainda não caiu direito, a gente queria ajuda. O que aconteceu é uma falta de preparo. Seis tiros? Isso pra mim é execução e o mais triste de tudo é saber que prenderam meus pais dentro de uma ambulância e avisaram que iriam matar ele”, dispara.

Às 11h de terça-feira, a sepultura de Leandro foi fechada sob os olhos atentos do pai que não se furtou em participar do último ato de homenagem ao filho, tentando compensar a distância no momento em que ele respirou pela última vez. “Quando eu consegui sair da ambulância e cheguei perto meu filho estava caído, ninguém fazia nada, ninguém tentou socorrer, nada. E quando eu cheguei perto, tentei ver o pulso, queria saber se ele estava vivo, queria ajudar meu filho, o policial me impediu, não me deixou nem ver o pulso do meu guri. Eu não consegui nem ver o último suspiro do meu filho”, desabafa.

Familiares encontraram algumas cápsulas espalhadas pelo quintal, local em que Leandro foi morto – Adrieli Evarini/Paralelo

Apesar de testemunhas afirmarem que os disparos que acertaram o peito de Leandro foram disparados pelas armas da Guarda Municipal, a prefeitura nega. Manifestando-se apenas por meio de nota, o governo municipal alega que não houve disparo de arma de fogo pelos agentes municipais. “A Prefeitura de Joinville informa que não foi disparado nenhum tiro letal pela Guarda Municipal. A guarnição apenas prestou apoio solicitado pela Polícia Militar”, limita-se a explicar.

De acordo com o delegado Elieser José Bertinotti, da Delegacia de Homicídios, responsável pelo caso, já foram ouvidos os depoimentos dos policiais militares e agentes da guarda municipal que participaram da ação que culminou na morte de Leandro. Além deles, familiares devem prestar depoimento. Testemunhas que presenciaram a ação também serão ouvidas nos próximos dias.

As armas utilizadas foram recolhidas e encaminhadas para perícia. O prazo para a conclusão do laudo pericial que vai identificar de quais armas partiram os tiros que mataram Leandro é de dez dias. Apesar disso, o delegado afirma que a Guarda Municipal utilizou “a arma de eletrochoque”.

Instaurado ainda na segunda-feira (18), o Inquérito Policial Militar deve apurar as circunstâncias da ação e a responsabilidade dos agentes da Polícia Militar. Segundo o major Celso Mlanarczyki, chefe de operações do 8º Batalhão de Polícia Militar, qualquer detalhamento a respeito dos fatos se dará a partir do IPM. “O objetivo do inquérito policial militar é averiguar como se deu a ação, sempre com clareza e transparência”, ressalta. O inquérito tem um prazo de 30 dias para ser concluído, podendo ser prorrogado se houver necessidade de diligências complementares.

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