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Moradores de residencial no bairro Jardim Paraíso relatam violência em ação policial

A ação ocorreu no dia 8 de setembro e pelo menos uma moradora foi atingida por balas de borracha. A Polícia Militar instaurou inquérito para apurar o caso

O clima era de feriadão em um residencial da zona Norte de Joinville na última sexta-feira (8). Além da já típica empolgação do feriado prolongado, a felicidade dos moradores foi intensificada após a realização de uma assembleia realizada para definir os rumos do condomínio. Localizado no bairro Jardim Paraíso, o residencial Rubia Kaiser abriga hoje cerca de 320 famílias e, naquela sexta-feira, depois da reunião que iniciou às 19h30 e se estendeu até quase 22h, um grupo de moradores se reuniu no pátio para conversar e comemorar o resultado da assembleia que acabara de se encerrar. Mas, a alegria foi interrompida pelo barulho de um disparo. E esse disparo partiu de uma arma da Polícia Militar. “Estávamos na frente do meu bloco, um grupo de mais ou menos vinte pessoas, crianças, todos. A gente saiu da assembleia e ficou ali, comemorando, até foguete a gente soltou, mas que eu saiba não é proibido comemorar né?”, conta Rafaela*.

O clima se transformou por volta das 23h, quando o disparo foi ouvido pelo grupo de moradores que se reunia no pátio. Tatiana* conta que assim que o barulho foi ouvido, a mãe de um adolescente viu o filho deitado no chão ao lado de pelo menos outros três jovens. “Ela escutou o tiro, olhou e viu o filho dela caído, que mãe não ia correr pra socorrer o filho? Claro que ela pensou que ele tinha sido atingido, todo mundo faria o mesmo”, diz. A mãe do adolescente correu em direção a portaria, onde os jovens estavam deitados sendo abordados por policiais militares, mas antes de chegar até o filho, desmaiou. “Ela tem problemas de saúde, pensou que aquele tiro que ela ouviu tinha sido no filho dela, ele ali caído, ela desmaiou na hora e nenhum policial se mexeu para ajudar, muito pelo contrário”, conta. O grupo já havia se deslocado para a entrada do condomínio, onde a ação acontecia. De acordo com diversos relatos, ao ver a mãe desmaiada, o filho levantou para socorrer a mãe e foi neste momento que o pânico tomou conta dos moradores, que inclusive filmaram a ação da PM no condomínio.

Marcas dos tiros ainda são evidentes em Luciana – Adrieli Evarini/Paralelo

Luciana*, conhecida no residencial como uma das lideranças dos moradores, conta que assim que o adolescente segurou a mãe, um policial começou a bater no garoto com a arma que portava. “O policial batia nele com a arma, eu pensei que ia dar morte. O menino correu pra socorrer a mãe porque viu ela ali, desmaiada e o PM batendo nele”, diz. Ao ver a cena, Luciana correu para tentar afastar mãe e filho de perto dos golpes do policial e foi neste momento que a arma começou a disparar balas de borracha. Luciana foi atingida duas vezes nas costas. “Na hora do nervosismo eu nem senti dor, só senti falta de ar e larguei o menino”, conta.

A ação, que foi filmada, mostra o desespero dos moradores que pedem calma aos policiais e avisam que há crianças no local. “Eu nunca passei pelo que passei aqui. Foi terrível. Isso sem contar o desespero das crianças, algumas se perderam dos pais no meio da confusão”, lamenta Patrícia de Oliveira. A consultora de vendas destaca ainda o impacto que uma ação como a que ocorreu no residencial tem nas crianças. “Isso mexe com a estrutura emocional, psicológica das crianças. Isso vai mexendo com a imagem que eles fazem da polícia”, afirma.

Luciana foi atingida por dois disparos de bala de borracha – Divulgação/Paralelo

Karla Fernanda de Oliveira conta ainda que, ao questionar a necessidade de tanta brutalidade em um ambiente com crianças que inclusive se perderam dos pais ouviu de um policial “deixa que uma hora elas aparecem”, referindo-se às crianças perdidas no momento da ação.

Para Patrícia, a ação foi completamente equivocada, desnecessária e brutal. Ela conta que a entrada de policiais no residencial sempre foi cordial e é até mesmo corriqueira, mas que, neste episódio, os excessos e violações são evidentes. “A gente não quer denegrir a imagem da polícia, mas foi exagerado, não foi um procedimento legal”, destaca. Segundo os moradores, ao final da ação, cerca de 10 viaturas da Polícia Militar, duas da Companhia de Patrulhamento Tático e até mesmo cães se reuniam no condomínio. “Não tinha essa necessidade, eles não falaram nada, chegaram desse jeito, se falassem que teria uma abordagem todos respeitariam como sempre”, completa Karla. Ela conta ainda que a justificativa dada no momento da ação era de que estavam em busca de um suspeito no condomínio. “Mas cadê esse suspeito? Falaram só pra justificar”, diz.

Luciana contou à reportagem do Paralelo que, após ser atingida nas costas pelos disparos de borracha, foi constantemente chamada por policiais que pediam desculpas e afirmaram que receberam, pelo menos, quatro ligações denunciando uma suposta confusão no local. “Pediam desculpas só pra eu não fazer boletim de ocorrência e tentavam justificar uma ação que não se justifica. Eles já chegaram atirando, chamando todo mundo de vagabundo, de bandido”, enfatiza. A marca do disparo continua aparente na parede do primeiro prédio do residencial, ao lado de onde tudo começou.

As marcas nas costas de Luciana ainda são visíveis e devem demorar a desaparecer. Apesar de ter realizado o registro da agressão na Central de Polícia, ela teme represálias da polícia, que tem uma base na entrada do bairro. “Era pra gente ter segurança com eles, mas eu tenho medo agora. Como a gente vai se defender?”, questiona. “Trataram nós como se fôssemos todos bandidos”, completa Karla.

Padrasto de um dos adolescentes abordados no início da ação, Roberto* condena a atitude da Polícia Militar, mas insiste que os moradores não querem denegrir a imagem de toda a corporação. “Eles sempre entraram aqui, não queremos sujar a imagem de ninguém, mas não foi um procedimento legal. Eles dispararam dentro do residencial, sem que tivesse qualquer resistência. Eles chegaram atirando. Aquela marca lá na parede não é de bala de borracha não. O primeiro infelizmente não foi de borracha”, ressalta.

Marca de disparo na parede do prédio – Adrieli Evarini/Paralelo

Joana*, mãe de outro adolescente também abordado no início da ação, conta que ficou ao lado do filho para ter certeza que ele não seria agredido. “Fiquei ali do lado mesmo, disse para o policial que ficaria e fiquei. Como eu vou saber que não iriam bater no meu menino porque a gente sabe que batem, que colocam na viatura inteiro e depois voltam quebrados”, diz. E foi ali, ao lado dos policiais e dos garotos que ela ouviu a suposta justificativa para a truculência e disparos. Segundo ela, os policiais alegaram ter iniciado os disparos porque um dos jovens teria feito menção a sacar uma arma do bolso do moletom. “Eles falaram que o menino colocou a mão no bolso como se fosse tirar uma arma, mas cadê a arma?”, questiona.

Duas pessoas foram detidas, um adolescente e outro homem que, de acordo com os moradores, chegou no condomínio depois que a ação já havia acontecido. “Ele tinha acabado de chegar e eles disseram pra ele com um ar de deboche ‘você será detido por desacato’”, conta Karla. Luciana, que foi à Central de Polícia, afirma que as duas detenções só aconteceram para justificar a ação no residencial. “Eu ouvi lá dentro que eles precisavam prender alguém pra justificar isso tudo, mas nós, moradores que passamos por isso queremos saber o porquê disso tudo, dessa violência toda”, ressalta. O adolescente foi liberado em seguida e o homem, morador do condomínio, foi liberado no dia seguinte por volta das 15h, conta Luciana.

O comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar, responsável pela região Norte da cidade, Jofrey Santos Silva, informou à reportagem do Paralelo que está ciente da ação e que um Inquérito Policial Militar foi instaurado na segunda-feira (11) para apurar a ação ocorrida no residencial na última sexta-feira. “O IPM irá apurar todas as circunstâncias e o resultado desse inquérito irá apontar as responsabilidades. O resultado será encaminhado à Justiça”, explica.

Jofrey ressalta ainda que o comando não irá se eximir em instaurar inquéritos para apurar qualquer possível ação que envolva policiais. “Sempre que houver uma ação que envolva um policial militar em serviço, não nos furtaremos em instaurar inquéritos para apurar as responsabilidades. Nós agimos com completa lisura”, finaliza.

Ao Paralelo, o comandante confirmou que nenhuma arma foi apreendida no residencial, mas negou a quantidade de viaturas presentes no local apontadas pelos moradores. Jofrey disse ainda que a ação foi motivada após uma viatura identificar, em frente ao condomínio, um homem “em atitude suspeita” e armado.

O prazo para o encerramento do IPM é de 30 dias.

 

*Os moradores tiveram seus nomes alterados por medo de represália.

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