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Estudantes reclamam do reordenamento nas escolas estaduais de Joinville

Governo afirma que evasão e falta de demanda motivam a prática

“O filho do trabalhador é tratado de qualquer jeito, agora se fosse o filho do governador do estado, duvido que estaria nessa situação. Se só existisse educação pública, que é o ideal, a educação não seria assim, seria de qualidade, então, a comunidade tem um papel muito importante, de estar junto com os estudantes lutando”. O desabafo é da estudante Mayara Inês Colzani, que faz parte do movimento Liberdade e Luta e também atua na Ujes (União Joinvilense dos Estudantes Secundaristas). Nas últimas semanas, a mobilização de estudantes, pais e professores foi intensa em Joinville. O motivo? O fechamento de escolas estaduais.

Pais, alunos e professores realizaram protesto em frente a ADR em Joinville – Sinte/Divulgação/Paralelo

No bairro Vila Nova, considerada parte da história do bairro, a Escola Maestro Francisco Manoel da Silva abrigava cerca de 700 alunos que, durante o recesso de férias, foram informados que seriam transferidos para a Escola de Ensino Médio Bailarina Liselott Trinks que, de acordo com a ADR (Agência de Desenvolvimento Regional) tem capacidade total para atender 1.400 alunos. Além do fechamento e transferência dos estudantes da escola do Vila Nova, os alunos que estudavam no período noturno na Escola Municipal Ruben Roberto Schmidlin, no bairro Morro do Meio, tiveram o espaço retirado e também foram transferidos para a nova unidade. A escola municipal cedia, no período noturno, salas de aula para alunos do ensino médio e do EJA (Educação de Jovens e Adultos) que agora estudam na nova escola, a cerca de sete quilômetros do antigo local de estudo.

Para a professora e coordenadora do Sinte (Sindicato dos trabalhadores em Educação de Santa Catarina) na regional de Joinville, Thaís Tolentino, o fechamento dessas salas de aula e escolas terá um impacto negativo na frequência e até mesmo no acesso à educação. “Fechando a escola como esse estudante vai? Um estudante que é trabalhador, que trabalhou o dia inteiro vai ter que andar mais de cinco quilômetros para chegar e outros cinco para voltar da escola. Isso se reverte em evasão e não tem política do governo de combate à evasão, muito pelo contrário, essas medidas vão piorar e a gente já percebe alunos entrando em contato para reclamar que tinham a escola e agora simplesmente não tem mais. E o governo é totalmente inadimplente com isso, ele ignora esse fato e inverte. Você percebe que esse argumento dele é uma contradição”, analisa.

Thaís se refere, justamente, ao argumento utilizado para justificar o reordenamento das escolas estaduais em Santa Catarina. Segundo a ADR, o processo de reordenamento iniciado pela Secretaria de Estado da Educação segue uma determinação do Ministério da Educação e Cultura e atende a um critério de demanda após mapeamento das escolas. Em nota, a agência afirma que, para ter viabilidade de funcionamento, cada período escolar necessita de um número mínimo de alunos matriculados, 120. “Essa reorganização é regulamentada por um parecer da comissão do Plano de Ofertas Educacionais, da SED. Isso justifica os custos de manutenção da estrutura física e também são avaliados critérios técnicos como gastos em transporte escolar e organização das turmas”, afirma. Ainda de acordo com a ADR, a escola Ruben Schmidlin apresentou queda drástica no número de matrículas, motivo pelo qual os alunos teriam sido transferidos. Já no caso da Maestro, a argumentação é de que o bairro não teria demanda para duas escolas, por isso, os alunos teriam sido transferidos para a nova estrutura que fica distante cerca de três quilômetros da antiga escola.

Para a coordenadora do Sinte, os argumentos de evasão e falta de demanda são incoerentes e demonstram a falta de conhecimento do governo em relação à realidade da comunidade e da escola pública. “Quando a Maestro foi construída o bairro tinha nove mil habitantes, hoje ele tem 25 mil. Chega a ser incoerente dizer que não tem demanda. Se o bairro cresceu tanto onde é que estão essas pessoas? Não é um crescimento pequeno. Onde estão esses alunos? Um aluno que não tem a estrutura necessária acaba evadindo, acaba saindo da escola, então por que não há uma campanha contra a evasão escolar? Dá o transporte para o aluno poder ir à escola, dá toda a estrutura para ele querer estar naquela escola. E é isso que o governo não faz, inclusive ele tem interesse na evasão escolar, é menos gasto, é menos custo. Por que ele vai fazer uma campanha contrária? É melhor só falar que tem evasão e justificar o fechamento. Porque se ele começa a trabalhar para combater a evasão, vai ter que reabrir escola”, destaca.

Movimento Não Feche Nossa Escola reúne alunos, pais e professores atingidos pelo fechamento das escolas estaduais em Joinville – Sinte/Divulgação/Paralelo

Para Mayara, além de o argumento utilizado para o reordenamento não se justificar na prática, a ação de transferência dos alunos para uma única unidade prejudica a própria aprendizagem devido à superlotação de salas de aula. Ela conta que, enquanto na Maestro as salas comportavam cerca de 20 alunos por turma, hoje, na nova escola, existem salas com 50 alunos. “Como você vai ter aula em uma sala com 50 estudantes? A gente sabe que não existe evasão escolar, o que não existe é investimento, incentivo do governo para que os estudantes estejam nas escolas”, comenta. A coordenadora do Sinte complementa afirmando que as ações visam única e exclusivamente o corte de gastos, tratando, dessa forma, os estudantes como cifras de um jogo político e econômico. “O governo desconhece por completo a realidade da educação pública, é totalmente à parte de fato da realidade, por isso ele trata a educação pública como número, números e cifras e isso acontece porque há um distanciamento gigantesco. A preocupação é em cima apenas de dinheiro”, analisa.

Presidente da Ujes, Jonathan Vitorio da Silva chama a atenção ainda para a alteração no cotidiano dos estudantes afetados pela mudança. Ele questiona a viabilidade de conciliar a escola e demais atividades muitas vezes desenvolvidas no entorno da unidade antes frequentada pelos alunos. “O fechamento dessas escolas prejudica também a vida cotidiana desses estudantes porque muitos trabalham, fazem cursos, ajudam os pais e agora transferem eles para outro local e como fica a situação deles? Vão parar de trabalhar, de estudar?”, dispara. O reordenamento proposto pela Secretaria de Estado da Educação também atinge outras cidades do estado, o que para o estudante é reflexo da falta de investimento. “A gente sabe que não é um caso isolado, que o estado inteiro está sofrendo com o fechamento de escolas e isso acontece porque o governo não investe. O problema está na falta de incentivo e investimento do governo que, em tempos de crise desconta na juventude, na educação”, completa.

Segundo dados da Agência de Desenvolvimento Regional, atualmente são 519 mil alunos matriculados nas escolas estaduais em Santa Catarina. Na região Norte, 41.708 estudantes frequentam a rede de ensino, seja no fundamental, médio ou educação de jovens e adultos. Destes, 27.938 estão em Joinville, distribuídos em 39 escolas.

Alunos denunciam estrutura precária em escola com menos de um mês de funcionamento

Aluno do 2º ano do ensino médio, Moacir Antônio Bento Júnior é um dos alunos atingidos pela mudança do bairro Vila Nova. Para ele, além de retirar os alunos de um ambiente em que já estavam inseridos há anos, o reordenamento tido como benéfico para o governo está influenciando diretamente na qualidade da educação. “Está bem difícil, sabe. A minha turma hoje tem mais ou menos 40 alunos quando antes tinha 25. Não tem a menor condição de ter aula em uma turma desse tamanho. Inclusive tem professor pegando atestado médico porque não dá conta de uma turma dessa. Além disso, não há organização, eles separaram turmas que se conheciam há anos e estão remendando, colocando do jeito que dá, sendo que uma turma já tinha aprendido determinado conteúdo e agora precisa rever porque tem outras pessoas na sala. Uma bagunça, uma perda de tempo”, desabafa.

Além dos problemas enfrentados em sala de aula, o aluno denuncia a precariedade da estrutura da escola, que está em funcionamento desde o final de julho. “A única coisa de diferente dessa escola para a Maestro é que aqui tem mais alunos. Fazem uma propaganda linda com laboratórios equipados, mas na escola é diferente. O auditório não tem cadeiras, o laboratório está vazio e para eles está tudo bem”, conta.

As reclamações chegaram também ao Sinte (Sindicato dos trabalhadores em Educação de Santa Catarina) Joinville. De acordo com a coordenadora Thaís Tolentino, as denúncias são de que as cozinhas estão interditadas e as pias estão inutilizáveis por problemas no sistema de encanamento. Com isso, a alimentação está sendo baseada em bolachas e alimentos que não necessitem de utilização direta da cozinha. “E a gente sabe que a luta pela alimentação na escola foi, de fato, uma luta. Tem muito estudante que faz da alimentação da escola sua principal alimentação do dia e agora está nessa situação e nenhuma posição foi dada”, diz.

Ainda segundo Thaís, o transporte não se mostra eficiente, com horários distanciados do início das aulas. “O ônibus que leva as crianças do antigo Maestro para a escola, por exemplo. Ele passa 11h45, mas a aula só começa uma hora da tarde, então, as crianças chegam e esperam uma hora na frente da escola até começar a aula. Isso acontece porque eles reaproveitam o transporte”, conta. “Não tem servente, tem três para os três turnos, não tem merenda suficiente para todo mundo e o ônibus não passa em horários acessíveis para os alunos. Eu ainda tenho sorte que consigo carona pra ir porque o ônibus passa muito cedo”, completa Moacir.

A reportagem do Paralelo tentou entrar em contato com a Gerência Regional de Educação, mas até o fechamento deste material não obteve retorno. A Secretaria de Estado da Educação afirmou que o órgão responsável por conduzir e responder pelo trabalho de reordenamento das escolas é a Agência de Desenvolvimento Regional.

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