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De Cuba a Joinville: a adaptação de uma médica cubana no Brasil

Uma entre os mais de 15 mil médicos do programa Mais Médicos, Yaima Figueroa Rios conta quais são as dificuldades de quem sai de Cuba para trabalhar no Brasil

Hoje, Yaima Figueroa Rios trabalha e mora na zona Sul de Joinville. Na primeira vez que pisou em terras brasileiras foi para ficar, pelo menos, nove meses. Já se passaram pouco mais de quatro e os dias que restam estão sendo contados um a um. A ansiedade tem nome, sobrenome e idade, uma tenra idade. Do alto dos seus cinco anos, Victor pergunta todas as noites para Yaima: “quando você volta mamãe?”. Do lado de cá, a mãe se emociona ao falar do filho. Do lado de lá, em Cuba, o filho só quer saber quando a mãe volta pra casa.

A espera de Victor deve terminar em dezembro, quando Yaima terá 30 dias de férias e voltará para a terra natal, de onde saiu com um contrato assinado e com as malas nas mãos. Aos 31 anos, ela é médica do Programa Mais Médicos. Criado em 2013, o programa nasceu com o objetivo de melhorar o atendimento aos usuários do SUS (Sistema Único de Saúde), visando levar mais médicos para regiões carentes do país, onde geralmente há poucos profissionais ou até mesmo completa ausência de médicos para atender a população. Foi neste programa que Yaima se inscreveu, ainda em 2016, passando a ser uma entre os 15.885 médicos que fazem parte do Mais Médicos hoje no país. Em Joinville atualmente são 13 os profissionais contratados através do programa. Destes, 11 são cubanos e oito deles vieram na mesma viagem que a mãe de Victor.

Aos 31 anos, a médica cubana Yaima Figueroa Rios sofre com a distância do filho de cinco anos, mas garante que essa é uma experiência única – Adrieli Evarini/Paralelo

Com sede de conhecimento, de novas experiências e, principalmente de “promover saúde e ajudar os brasileiros”, Yaima desembarcou em Joinville, mais precisamente na zona Sul da cidade, para trabalhar em uma unidade de saúde da família, trabalho que já desenvolvia em Cuba há cinco anos. “Os médicos cubanos são muito solidários, eles não ficam somente em Cuba e no Brasil, eles ficam em toda a América, também trabalhando com colaboração médica, mas no Brasil foi instalado o programa. É medicina em todo lugar, mas o protocolo de trabalho é diferente e sobre isso e sobre a linguagem, a preparação foi intensa”, conta.

A preparação citada por Yaima durou cerca de dois meses ainda em terras caribenhas. Ela explica que depois da inscrição realizada, o candidato passa por dois meses de preparação com professores brasileiros. Nesta preparação os dois pontos principais trabalhados com os médicos cubanos são, justamente, a linguagem e os protocolos de trabalho utilizados no Brasil. Depois desta etapa, os inscritos prestam uma prova para obter a certificação necessária para atuar em terras brasileiras. No caso de Yaima, o processo todo, desde a inscrição até o desembarque em Brasília durou entre seis meses e um ano. “Ficamos em Brasília cerca de um mês, fomos recepcionados. E depois viemos para Joinville”, diz. A médica saiu de Cuba sem saber em qual cidade trabalharia.

E foi em Joinville que a médica cubana se deparou com uma situação até então inimaginável para ela e que lhe causou choque: a demora para realização de exames. Segundo ela, a burocracia para realizar exames não existe em Cuba. “Aqui tem muita tecnologia, mas pra mim, a principal diferença é o tempo que o paciente tem que aguardar para fazer as coisas. Lá as pessoas não precisam aguardar para o exame, o atendimento. Eu falo para os meus companheiros, por exemplo, uma ultrassonografia, não tem que aguardar, não tem que aguardar um regulador pra fazer, a gente tem e faz, então é mais fácil e mais rápido chegar ao diagnóstico do paciente”, explica. A médica conta que essa é a principal dificuldade no que diz respeito ao trabalho, que envolve todo um protocolo de atuação. “Essa é a principal dificuldade porque não estamos acostumados a isso, claro que lá também tem morte por determinada doença, mas o diagnóstico é mais rápido e quanto mais rápido, mais possibilidades temos”, diz. “Mas, estou aqui para trabalhar com as condições que tem para trabalhar e vou fazer o melhor possível”, completa. Além disso, os prontuários têm sido um desafio. Yaima conta que em Cuba o preenchimento é todo feito à mão, ao contrário de Joinville que tem um sistema eletrônico de atendimento ao paciente.

Alvo também de críticas, o Programa Mais Médicos atua, especialmente, em cidades e comunidades carentes do país. Yaima não entende os motivos que levam a essas críticas e diz que, apesar de serem de outro país e apresentarem dificuldade com a língua portuguesa, são médicos e se esforçam para minimizar qualquer diferença linguística e cultural entre eles e pacientes. “Pra gente é algo incômodo porque viemos ao Brasil para fazer o que melhor sabemos e podemos fazer. Nós somos médicos, mas somos seres humanos, erramos também, temos direito de errar, temos direito de fazer, em algum momento, alguma coisa que para o outro não é o ideal, mas tentamos, a todo momento, fazer a coisa certa e falar o melhor possível. Nossa intenção é ajudar o povo brasileiro, promover mais saúde, fazer a medicina como nós, cubanos, sabemos fazer. É por isso que a gente vem”, ressalta. Apesar das críticas, a médica destaca que a população aceita bem a presença dos cubanos. “A população que a gente atende, não estou falando daqueles médicos de clínica privada, não estou falando daquelas pessoas de outro universo de vida, estou falando da população que a gente atende”, afirma.

Quando partem da população, Yaima tenta entender as críticas, principalmente pensando no que diz respeito à comunicação entre médico e paciente, embora enfatize que os cubanos estabelecem uma boa relação com os pacientes e praticam o português também fora dos consultórios. Mas, quando as críticas são disparadas por médicos, aí a compreensão fica mais difícil. “Eu realmente não tenho uma explicação pra isso porque estamos aqui para ajudá-los, então não sei porque existem essas críticas. Estamos trabalhando em lugares bem difíceis, sem pedir nada de mais em troca, só queremos trabalhar, promover saúde, fazendo o melhor que podemos. Não viemos para ocupar o lugar de ninguém, só viemos para trabalhar, para fazer o melhor para o povo carente. É isso. Porque estamos trabalhando em cidades, em lugares onde o povo é bem carente. Não sei como explicar isso”, desabafa.

Segundo o Ministério da Saúde, o orçamento previsto para o Programa Mais Médicos neste ano é de R$ 3,3 bilhões, valor que supera os de anos anteriores. Em 2016, o valor executado foi de R$ 2,7 bilhões, em 2015, R$ 2,4 bilhões e em 2014, R$ 2,5 bilhões. O menor valor investido foi em 2013, quando o Mais Médicos foi lançado, por isso, nos cinco meses do ano em que ele efetivamente foi colocado em prática, o orçamento foi de R$ 534 mil. Ainda de acordo com o Ministério, os médicos inseridos no programa recebem bolsa mensal no valor de R$ 11,5 mil, além de auxílio moradia, alimentação e transporte, esses pagos pelo município onde atuam.

Atualmente são 18.240 vagas em todo o país através do programa, sendo que 15.885 já estão preenchidas. São 8.117 médicos cubanos, 5.785 médicos com CRM do Brasil e 1.982 intercambistas individuais. As vagas em aberto estão em processo de preenchimento, afirma o Ministério da Saúde.

Em Joinville, além de onze cubanos, um espanhol e um brasileiro estão inseridos no programa. Eles atendem predominantemente na zona Sul da cidade, mas também há profissionais do Mais Médicos na zona Leste e Norte.

Saúde e educação priorizadas

O investimento em saúde preventiva não é a única ação que enche os olhos de Yaima ao falar do sistema de saúde de seu país. Ela conta que a gratuidade e a prioridade dada a dois serviços básicos os tornam um povo privilegiado. “Lá em Cuba existem dois setores priorizados: saúde e educação. Somos privilegiados com saúde e educação, são totalmente gratuitas, as duas. Eu falo para os meus companheiros, lá não tem que fazer nenhum pagamento para estudar medicina, é só preparar-se e estudar. Pode estudar o filho de um obreiro e o filho de um empresário, só tem que contar com o conhecimento e a preparação. E depois de graduado, tem trabalho. Todo mundo sai e trabalha com a população, todo mundo. É assim, é privilegiada. Pra mim isso é muito importante. A saúde e a educação, isso deve ser privilegiado em todo lugar do mundo”, destaca.

Mas, ao chegar ao Brasil ela se deparou com uma realidade bem diferente, onde apesar de existirem serviços de saúde e educação públicos, eles não chegam à toda a população, especialmente à população mais carente. “Pra mim não tem explicação porque tem pessoa que quer estudar medicina, tem conhecimento, tem talento, mas por não ter dinheiro não pode estudar e tem aqueles que podem estudar mas não reúnem outros requisitos. Pra mim foi um choque, não critico, mas não entendo, não estamos acostumados, nós não tivemos que fazer isso pra cursar medicina e aqui estamos nós. Não pagamos, só estudamos, só trabalhamos e acho que não fazemos tudo errado”, diz.

Além de priorizar a saúde, a palavra de ordem, segundo Yaima, é prevenção. “Cuba não tem tanto recurso financeiro, mas tem muito programa de prevenção. A medicina é bem preventiva”, conta. E a prevenção tem dado certo. A médica conta que as doenças mais comuns no país caribenho são as crônicas, como hipertensão e também doenças respiratórias. Nestes quatro meses trabalhando no Brasil, as doenças mais comuns atendidas pela médica foram, entre outras, sífilis e tuberculose. “A saúde lá é bem preventiva, aqui estamos tentando fazer a mesma coisa, pelo menos na base, fazer prevenção para diminuir o número de casos. Isso é fundamental. Perguntam como pode diminuir? Com prevenção”, comenta.

Três anos e quase 5 mil quilômetros de distância de casa e da família

Quase 5 mil quilômetros. Hoje essa é a distância que separa Yaima Figueroa Rios dos pais, do filho e do marido. E é esse o maior obstáculo que a médica cubana de 31 anos enfrenta e enfrentará nos três anos que ficará no Brasil. Mas, apesar disso, foi justamente na família que ela encontrou apoio para participar do Programa Mais Médicos. “Imagina como é para os meus pais, eles ficam longe da filha, mas tem a responsabilidade de cuidar do meu filho. Apesar disso, eles foram o meu maior apoio, se não fosse pelo apoio deles, não poderia ficar aqui. Eles são o meu motor impulsor e eu estou muito agradecida, eles cuidam muito bem do meu filho, eles são adoráveis”, conta com a voz já embargada.

Casada, ela teve que abrir mão da convivência com o marido para realizar o sonho de ter uma nova experiência e trabalhar no Brasil. “É bem difícil também essa separação, mas a gente conversou e chegou a um acordo, ele aceitou. Mas é difícil, a convivência não vai ser a mesma, o tempo é bastante longo, mas estamos tentando”, diz.

Mas, a distância do filho é o que mais a deixa “doída”. Com apenas cinco anos, o pequeno Victor ainda não consegue entender a dimensão e a importância do trabalho que a mãe desenvolve no país mais ao sul. “Não expliquei pra ele, só disse que a mãe tinha que ir trabalhar para cuidar de outros filhos. Não expliquei quanto tempo vai ser, mas disse que a mãe tem que trabalhar porque tem filhos doentes em outro lugar, que a mãe tem que ir curar, mas ele não gostou e disse: mãe, não vai. Eu disse ‘a mãe vai, mas volta’”, conta.

A internet tem sido a aliada de Yaima nesses meses. Todas as noites ela usa da tecnologia para tentar encurtar um pouco a distância e acalmar a saudade. E Victor não está muito interessado nas experiências da mãe e sim, na volta dela. “Ele sempre pergunta ‘mãe, quando você volta? Quando vem me dar banho? Quando vem me dar comida?’. Ele pergunta porque tem necessidade da mãe. É difícil, tem dias que desligo e fico muito ruim”, lamenta.

Em Cuba, todos moram juntos, pais, filho e marido. Do Brasil ela espera levar na bagagem experiência, conhecimento e o sentimento de dever cumprido.

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