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Dos ensaios ao palco, a preparação de um grupo para o Festival de Dança de Joinville

O Paralelo acompanhou o Kulture Kaos, equipe que se apresentou na categoria danças urbanas, para mostrar como é participar do maior festival do mundo

“5, 6, 7, 8, tatatatatatatata, bom bom bom bom bom, i, 1, 2, 3, 4”.

Para quem não tem intimidade com o tema é difícil achar significado entre essas palavras e números embaralhados. Mas, para os 32 bailarinos do Kulture Kaos, cada som é um movimento e todo movimento deve ser preciso para quem tem a ambição de vencer o Festival de Dança de Joinville, considerado o maior do mundo.

Quem entoa os sons no ginásio da Escola Municipal Professor João Bernardino Silveira Junior, palco dos últimos ensaios do grupo, é o coreógrafo Eduardo Alcantara, que não raramente enuncia a sequência de números e palavras por quatro, cinco, seis vezes até estar satisfeito com o resultado. Por vezes, entre o conjunto de sons, um “presta atenção quem tá errando” também pode ser ouvido pela pouca plateia que assiste aos ensaios, formada por amigos e algumas crianças curiosas.

Eduardo faz ajustes na coreografia – Juliane Guerreiro/Paralelo

Quem passa pela rua e ouve a trilha da apresentação fica interessado. Um menino da vizinhança explica: “é só treinamento”. No entanto, o treinamento, para a equipe, não é “só”. Nos ensaios são feitos os ajustes que aprimoram a coreografia aprovada para a categoria “danças urbanas” do festival e que podem render o troféu à equipe.

Passar na seletiva do festival era o único objetivo do grupo criado em abril do ano passado. “Isso é maravilhoso pra gente, eu já me sinto um vencedor de ter passado. A gente sabe da dificuldade, tem grupos que estão aí há nove, dez anos, mandam trabalhos e não passam porque é muito difícil, uma seleção muito rígida. Por isso, a gente já sente o dever cumprido”, conta Ruan Amorim, bailarino e coordenador do grupo durante um dos ensaios.

O responsável pela coreografia que deu vez nos palcos do Centreventos Cau Hansen ao Kulture Kaos e que insiste em acertar os passos dos bailarinos com as palavras e números é considerado um dos diferenciais do grupo pelos coordenadores. “A gente tem um coreógrafo de ponta. O fato de ter ido buscar em outro lugar causou um impacto não só no grupo, mas também em mim e no Ruan porque é uma coisa totalmente diferente pra gente”, explica Bruno Soares, bailarino e coordenador. Eduardo reside em Curitiba e esteve com o grupo pela primeira vez em Joinville em fevereiro, quando criou a coreografia em dois dias. Depois, esteve com os bailarinos em abril e no penúltimo fim de semana antes da apresentação. Além da coreografia, a trilha sonora também foi produzida por ele. “A única dificuldade que encontro ao coreografar grupos de outra cidade é por não conhecer os bailarinos. Tenho que fazer alguns testes antes de começar a coreografia, por exemplo, passo uma aula antes pra ver qual é o corpo de cada um e avalio todos dentro do que eu propus, dentro da minha coreografia”, explica. Mesmo sem Eduardo, o grupo ensaia todos os fins de semana.

Para os bailarinos, colocar a coreografia proposta em prática foi um desafio. “Foram dois fins de semana em que a gente pegou essa coreografia e foram os quatro dias mais terríveis da minha vida. Era machucado, era sofrido, era uma coisa completamente nova porque a gente não tinha esse contato. Eu sempre fui de treinar um hip hop mais travado, um pouco mais de break, mais de força, e o Dudu tem um hip hop bem diferente, mais peito, bem solto, com muita precisão, e é muito difícil seguir essa linha dele”, destaca o bailarino William Figueredo. Janis Ellye, também bailarina, concorda. “É um estilo de dança muito bom, mas é difícil de pegar, é muita força. Ainda assim, eu me esforcei bastante, assim como todo mundo se esforçou muito e eu estou bem satisfeita”, fala.

O nome da coreografia é “Conection”, conexão em português. “É a conexão de um tema com um cenário, conexão dos bailarinos com o cenário e entre os bailarinos com a música e entre eles. Nesse trabalho eu coloquei break, femme style, dancehall, alguns estilos das danças urbanas que eu costumo trabalhar. Eu não tenho uma técnica específica de algum estilo, mas gosto de trabalhar todos eles”, explica Eduardo. Para fazer a conexão, elásticos estão presos aos corpos dos bailarinos ou são levados por eles durante a maior parte da apresentação.

Coreografia une diversos estilos das danças urbanas – Kevyn Izo/Paralelo

Sem subestimar a concorrência, formada por seis grupos consolidados no cenário, o coreógrafo é confiante. “Os outros grupos têm uma identidade muito forte, o que aqui a gente ainda está buscando por conta de o grupo ser novo. Então eu estou apostando em trazer vários estilos, uma ideia diferente, para que isso se sobressaia aos outros grupos. Talvez eles não tenham um tema, a gente tem. Talvez não tenham um elenco tão diversificado, a gente tem”, aposta Eduardo.

Duas semanas antes do festival, a avaliação é positiva. “O que falta pra gente ficar legal é a dedicação desses bailarinos. A gente se doa cem por cento, mas ainda falta aquele 50% extra, aquele pouquinho que todo mundo poderia dar junto”, analisa Bruno. Já no penúltimo ensaio antes da grande noite, os coordenadores pedem energia. “A gente sabe a coreografia, mas que hoje a gente busque dançar com energia, com expressão”, ressalta Ruan. A dois dias da apresentação, o grupo fez um último ensaio, desta vez de madrugada.

A noite de apresentação

O coordenador Ruan Amorim explica que o nome Kulture Kaos surgiu do caos em que os dois criadores estavam antes de formarem o grupo, além do caos que, segundo ele, é necessário para encontrar uma direção. “O kaos é isso mesmo. A gente procura esse desconforto, nunca estamos satisfeitos com o que a gente tem, a gente sempre quer mais”. Durante a preparação para o festival, o caos incluiu encontrar lugares para ensaiar, custear as despesas que somam cerca de R$ 5 mil para um grupo que é voluntário e não cobra mensalidade, além de gerenciar o caos que se implantou no sistema nervoso de todo bailarino na noite da apresentação.

O grupo era o último, o 33º, a se apresentar na 7ª noite competitiva do festival, que reuniu bailarinos de danças contemporâneas e urbanas. Os integrantes foram chegando aos poucos e, em uma sala cedida pelo Bolshoi, ensaiaram pela última vez antes de subir no palco. Uniformizados com roupas pretas e brancas, confeccionadas para destacar o movimento dos braços, eles dividiam o espaço com um grupo adversário, com bailarinos vestidos de preto que davam os últimos passos em frente ao espelho antes de serem chamados ao camarim. Olhares nervosos, curiosos e atentos se cruzavam em um clima amistoso, em que a ansiedade unia os dois grupos.

Grupos dividem mesmo espaço antes das apresentações – Juliane Guerreiro/Paralelo

Os bailarinos Jean Paradella e Renan Soares já haviam subido no palco na mesma noite. Além de competir com a equipe, eles apresentaram uma coreografia na categoria duo de danças urbanas e estavam ansiosos em dobro, pelo resultado da dupla e pela segunda apresentação com o grupo. “Essa espera de dançar mais uma vez, isso é maravilhoso. Eu já sei qual é o sentimento e vou sentir isso de novo ao lado de todos os meus parceiros”, fala Jean. “Pelo fato de sermos de Joinville, a galera vai a loucura e isso deixa a gente muito bem. O fato de estar duas vezes dançando é incrível”, completa Renan.

Minutos antes da apresentação, depois de passar pela biometria, sistema para impedir que pessoas não autorizadas se apresentem, os bailarinos do Kulture Kaos se reuniam ao lado do palco esperando pela sua vez ao lado de outros grupos. Uns aplaudiam os outros e os gritos de “merda”, usados para desejar boa sorte, seguiam por todos os lados.

Atrás de um fino tecido preto, os grupos competidores se apresentavam, enquanto os bailarinos do grupo joinvilense tentavam espiar, alguns deitados no chão, qualquer movimento que pudesse direcionar as expectativas. Enquanto Rihanna cantava para embalar o adversário, os bailarinos do Kulture Kaos tentavam segurar o nervosismo. “Todo mundo tá nervoso, é impossível não estar, o problema é você controlar isso. Eu não dormi nada na noite passada”, diz Ruan.

Bailarinos do Kulture Kaos observam apresentação de um concorrente – Juliane Guerreiro/Paralelo

Antes de tomar o lugar no palco, abraços entre todos e uma oração. Depois disso, as luzes se apagam, a música começa e tudo passa muito rápido, assim como os movimentos ágeis desenvolvidos pelos bailarinos e que não saem da cabeça desde que Eduardo falou “5, 6, 7, 8” pela primeira vez. A cada movimento, a plateia grita empolgada e, no fim da apresentação, aplaude em pé o grupo joinvilense que fechou a noite. Nos bastidores, uma pessoa que trabalha na organização acena positivamente com a cabeça, outra diz “é da nossa cidade” e também se ouve um “meu senhor” tipicamente joinvilense.

Aos gritos de alegria, os bailarinos pulam e comemoram a apresentação. No camarim, Ruan deixa escapar as lágrimas enquanto Bruno enfatiza: “eu nunca dancei num grupo onde me dá tanto tesão em estar do lado de todo mundo. Essa energia que a gente pôs no palco, eu nunca senti isso antes. Independentemente de colocação, eu quero agradecer vocês porque eu amei dançar isso aqui”.

Família e amigos parabenizam os bailarinos depois da apresentação – Juliane Guerreiro/Paralelo

Em direção à feira da sapatilha, onde os resultados são divulgados, os bailarinos são parados a todo momento por familiares e amigos. Reunidos na rampa do Centreventos Cau Hansen, eles ouviram juntos o momento em que o locutor começou a anunciar os resultados da noite, cerca de uma hora depois da apresentação. Quando o terceiro e o segundo lugar foram anunciados, os integrantes do Kaos pareciam não acreditar. O resultado poderia significar que o grupo não havia alcançado o pódio ou que havia conquistado o primeiro lugar e, nitidamente, os bailarinos acreditavam na última opção. “Primeiro, primeiro”, gritavam algumas pessoas antes de o locutor anunciar o resultado esperado pelo grupo, que só “queria incomodar, não deixar fácil para os outros grupos” como disse, por diversas vezes, o coordenador Bruno, já que esse é o primeiro ano em que o Kulture Kaos faz parte da competição, o segundo do grupo.

“Em primeiro lugar, o grupo que vai voltar à noite dos campeões no palco do Centreventos Cau Hansen é: Kulture Kaos”.

Pulos. Gritos. Abraços. Lágrimas. Com pouco mais de um ano de vida, o Kulture Kaos conquista o primeiro lugar na categoria danças urbanas do Festival de Dança de Joinville.

“Foi um marco na história do hip hop, pelo menos pra mim. Há muito tempo a gente não tem uma competição tão acirrada como essa. Todos os grupos tiraram nota de primeiro lugar e isso é muito difícil acontecer. Ter a maior nota pra nós foi sensacional, pra mim foi a realização de um sonho”, ressalta o coreógrafo Eduardo, que durante a apresentação do grupo fazia o controle da iluminação no palco.

O grupo que queria incomodar, incomodou. “Nesse um ano do grupo a gente veio batalhando muito. A gente queria incomodar pra ser difícil para os outros levarem o prêmio aqui de Joinville, mas a gente acabou incomodando tanto que a gente ficou com o prêmio”, comemora Bruno. Para Ruan, o resultado amplia a responsabilidade do grupo, que tem participação garantida no próximo festival.  “Ano que vem a gente vai fazer muito melhor, pode ter certeza”, promete.

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