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Além dos doze dias: como Joinville valoriza a dança antes e depois do festival

"Capital Nacional da Dança" não tem cursos de graduação, companhia municipal e teatro específico para a prática

É julho em Joinville: a quadra do Centreventos Cau Hansen dá espaço às arquibancadas, as vitrines ganham decorações comemorativas e os bailarinos estão nas ruas e em palcos espalhados pela cidade. No mês em que recebe o Festival de Dança, a cidade veste o título de “Capital Nacional da Dança”, concedido oficialmente no ano passado pela Presidência da República, e lota os espaços para prestigiar bailarinos de todo o Brasil.

Que o festival é sucesso de público, oportunidade de aprendizado aos bailarinos e motivo de orgulho aos joinvilenses não se discute pelas pessoas ligadas à arte na cidade. Mas que incentivo tem a dança em Joinville nos outros onze meses do ano? Para Ely Diniz, presidente do Instituto Festival de Dança, realizador do evento, existe no imaginário das pessoas que visitam a cidade em julho a impressão de que Joinville “respira dança” o ano todo. “A cidade valoriza muito o festival e o Bolshoi, isso não quer dizer que valorize a dança. Já tivemos companhias, como a da Deborah Colker, que abriu o evento neste ano, que vieram fora do festival e havia 400 pessoas na plateia quando, durante o festival, teria a casa cheia”, exemplifica.

Ana Beatriz Siqueira, bailarina e coordenadora da Escola Municipal de Ballet de Joinville, também ouve a mesma impressão de quem visita o município nesta época do ano. “Se a gente conversa com o pessoal que vem de fora eles dizem que aqui é tudo de bom, que aqui tem de tudo, mas são só esses dez dias. Para eles é bom mesmo, é ótimo. Mas é durante esses dias que a gente tem tudo, tanto é que a gente tem que aproveitar também porque durante o ano a gente não tem tudo isso fácil, esses cursos, todos esses espetáculos, essa troca de informação”, analisa. Para ela, que além de coordenadora também deu os primeiros passos na escola em que atua hoje, embora tenha tido algum avanço, a cidade ainda não cresceu nesta área. “Eu vejo que não cresceu muito desde a minha época, há uns vinte anos. Desde lá a gente pedia ensino superior e a gente não teve. Naquela época, a gente não tinha nem sapatilha aqui para comprar e agora está melhor, mas ainda é pouco. Joinville é precária nessa questão para ser a capital da dança. A gente pode ter o festival aqui, mas para o bailarino eu acho que ainda falta muito”, ressalta.

Festival completa 35 anos em 2017 – Juliane Guerreiro/Paralelo

Para Edson Gellert Schubert, presidente da Anacã (Associação de Grupos de Dança), o festival gera sombra aos outros eventos realizados na cidade. “O festival abre espaço para os grupos, mas devido ao seu tamanho só os grupos mais tecnicamente qualificados conseguem participar. Então boa parte vai ficar de fora e nós, como associação, optamos por trabalhar na preparação dos grupos para que eles possam ter sua grande vitrine no festival. O festival não é inimigo, mas gera sombras porque tem um conjunto de marketing muito forte que eu não tenho, como associação ou grupo de dança, recurso financeiro para chegar perto”, explica.

Faltam espaços dedicados à dança

Uma das coisas que falta aos bailarinos, segundo Ely Diniz, é lugar para se apresentar. “Para que a cidade respirasse dança, teria que ter alguns pilares básicos, como um teatro que comportasse a dança. Hoje a gente tem um teatro pequeno e uma grande arena, então precisamos de um teatro”, avalia.

Foi em busca de um lugar para ensaiar e se apresentar que surgiram a Anacã e a Mostra Dança Joinville, como conta o presidente da associação. “A associação foi fundada como um desafio e uma resposta. Em 2007, 2008, Joinville tinha um conjunto de danças urbanas, principalmente, muito forte, com presença marcante no festival e em âmbito nacional. Eles acabaram se multiplicando e estavam com dificuldades para locais de ensaio e de apresentação. Então, fizeram uma reunião com o Instituto Festival de Dança, o Bolshoi, a Fundação Cultural e esses grupos. Conversando, o Bolshoi cedeu salas de ensaio no sábado e o instituto pagou um guarda para controlar o acesso e, se precisassem, forneceria o linóleo. Então a fundação disse ‘vocês têm local de ensaio, para não ficar de graça, queremos ver a produção de vocês e terão que fazer um espetáculo quatro vezes por ano’ e, assim, surge a Mostra Dança Joinville”, relembra. Até 2011, a mostra era organizada por um grupo diferente a cada edição, na Sala Agripina Vaganova, cedida pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil. Porém, com o crescimento do evento, a organização foi repassada à diretoria da Anacã e as apresentações passaram a ser realizadas no Teatro Juarez Machado. Realizado em caráter não competitivo, os custos de aluguel do espaço, iluminação e som do evento são pagos pela associação, enquanto os grupos recebem comissionamento pela venda de ingressos.

Neste ano, em que já foram promovidas duas edições da mostra, o evento apresentou 86 coreografias entre as categorias adulto e infantil. “Hoje temos o Dança Joinville consolidado. Para os grupos locais é não só um espaço de apresentação, mas de formação, se transformou em uma necessidade dos grupos. Primeiro por uma questão estrutural: os grupos querem se apresentar, mostrar seu trabalho, ganhar dinheiro com isso, isso tudo aliado a uma carência de espaço para espetáculos”, avalia.

“Capital Nacional da Dança” não tem teatro nem companhia municipal – Juliane Guerreiro/Paralelo

Conforme o Plano Municipal de Cultura de Joinville, instituído em 2012, as ações prioritárias envolvendo a dança incluem a criação de espaços físicos adequados para a democratização do acesso à prática da dança em todo o município e do Galpão da Dança, na Cidadela Cultural, em curto prazo. Apesar disso, para Edson, a implantação do plano está falida. “O plano inteiro foi vítima do descaso coletivo do poder público. Em 2008, a fundação solicitou a confecção de um projeto para que o Galpão da Ajote ficasse onde está, o galpão intermediário fosse para a reserva técnica das obras do MAJ (Museu de Arte de Joinville) e o terceiro seria o Galpão da Dança, enquanto os três compartilhariam na parte frontal um foyer comum, com duas bilheterias. O projeto foi desenhado e engavetado porque nessa mesma época surgiu a necessidade premente de que o MAJ precisa ter um espaço expositivo adicional e que, então, apropriou-se desses dois galpões. A dança continua sem espaço, continua alugando o Teatro Juarez Machado, continua vivendo daquilo que consegue achar”, destaca Edson.

Elaine Pereira Gonçalves, participante do Conselho Municipal de Cultura, também reclama da falta de espaços exclusivos para a dança. “O pior é que nunca tivemos um lugar para executar a dança. Nós já tivemos esse espaço, que era um espaço na Cidadela em que qualquer grupo poderia ensaiar, mas foi tirado por desleixo da política pública. O retrocesso é sempre em relação ao mais fraco, que é a dança, que não se impõe”, ressalta.

Hoje, Joinville conta com alguns teatros, como os disponíveis em universidades, mas nenhum deles é próprio para a dança.

Graduação em dança ainda não saiu do papel

Outra ação prioritária definida no plano é a articulação junto às instituições públicas de formação superior para a implantação de cursos de bacharelado, licenciatura e especializações em dança, também a curto prazo. Porém, assim como um espaço dedicado à dança, os cursos de graduação não saíram do papel.

Em 2013, o secretário de Estado da Educação, Eduardo Deschamps, anunciou a implantação do curso de licenciatura em dança em Joinville e Florianópolis pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Na “Capital Nacional da Dança”, o curso seria sediado na Escola Estadual Germano Timm, cedida pelo governo estadual, que também ampliaria em 0,042% o repasse à universidade para a implantação do curso. Entretanto, nenhuma das duas cidades recebeu estudantes de dança até o momento e, no caso de Joinville, isto parece não ter prazo para acontecer. “Nós temos aprovado no conselho universitário o curso de dança em Florianópolis, mas faltam recursos para viabilizar esse curso lá”, afirma José Fernando Fragalli, diretor-geral do Centro de Ciências Tecnológicas da Udesc em Joinville. Segundo ele, por ser voltado às ciências exatas e tecnologia, o campus de Joinville não é o mais adequado para receber o curso. “A universidade é multi campi e o campus de Joinville é voltado à tecnologia, então o mais adequado para esse curso de dança é o Centro de Artes, que fica em Florianópolis e que já tem a parte pedagógica do curso aprovada, faltando apenas os recursos. Não é que a universidade não está interessada, é que a especialidade do campus joinvilense não é essa. Isso seria gastar recursos de forma duplicada e duplicar cursos não é uma política geral da universidade”, explica o diretor.

Anunciado em 2013, curso de dança não foi implantado em nenhuma das cidades – Reprodução

Para o presidente da Anacã, a universidade ignora a mudança de perfil da cidade. “É como se nesses 40 anos desde a implantação da Udesc a cidade não tivesse sofrido transformações e mudanças no seu perfil. Como se nós ainda estivéssemos presos às mesmas fábricas e ao mesmo modo de trabalho da década de 70”, ressalta Edson.

As consequências da falta de um curso de graduação em dança também são sentidas na Escola Municipal de Ballet, que atualmente recebe cerca de 300 alunos em cursos de ballet clássico e jazz, e que foi o berço do Festival de Dança de Joinville. “É triste para nós e para o nosso aluno ter que dizer ‘se é isso mesmo que você quer, então agora está na hora de procurar outros ares’. Se a gente vê potencial, técnica e qualidade, a gente acaba tendo que mandar para outros lugares”, conta a coordenadora Ana Beatriz. Ela é uma das bailarinas que deixou Joinville após se formar na Escola Municipal de Ballet para continuar os estudos.

Para a conselheira Elaine, a falta de um curso também implica na falta de pesquisadores em Joinville. “Como a cidade não está no circuito técnico de ter uma faculdade, é pouca gente que tem a pesquisa, então não temos pesquisadores, o que é uma lástima”, avalia. O bailarino e professor Fernando Lima concorda. “Com a graduação, os profissionais poderiam desenvolver seu trabalho de forma mais didática, mas muitos que trabalham na cidade acabam sendo autodidatas mesmo”, afirma.

Segundo Edson, nem mesmo as universidades privadas mostram interesse em abrir cursos de dança em Joinville – enquanto a Furb, em Blumenau, acaba de abrir as inscrições para o primeiro curso de graduação em dança do estado. “Nós entendemos que poderíamos ter qualidade muito maior se tivéssemos uma graduação em dança. A gente pode importar? Sim, é o que estamos fazendo. Tem muita gente que sai de Joinville, vai fazer faculdade de dança e depois está voltando. Só que saem dez e volta um, voltam dois”, analisa. Além disso, Edson prevê que a cidade enfrentará dificuldades ainda maiores daqui a quatro anos, quando passa a valer a lei federal que obriga a implementação da dança no currículo do ensino básico.

Grupos buscam incentivo

Para o presidente do Instituto Festival de Dança, Ely Diniz, outro pilar para o desenvolvimento da dança em Joinville seria a criação de uma companhia oficial de dança no município. “No Bolshoi existe uma companhia jovem, mas que enfrenta dificuldades para se sustentar e que, se tivesse um lugar, poderia se apresentar e trazer pessoas de fora para assistir”, completa.

Em Joinville, segundo o presidente da Anacã, não há grupos que vivem exclusivamente das apresentações de dança. “Os dois grupos que eu arriscaria dizer que estão mais próximos disso são o Grupo Fernando Lima e a Companhia Jovem do Teatro Bolshoi. No primeiro caso, os integrantes também dão aula, tem outras atividades como principais, financeiramente falando. E a Companhia Jovem é a mesma coisa, eles não conseguem sobreviver apenas com os prêmios”, avalia Edson. Ele explica que Joinville tem diversos tipos de grupo, como os formados por amigos que se reúnem por causa do gosto pela dança, grupos amadores, de escolas e estúdios e grupos competitivos.

Fernando Lima, bailarino e coreógrafo que dá nome ao grupo citado por Edson, explica que a maioria dos treze bailarinos do grupo tem outra escola de dança ou lecionam em alguma escola. “Nós não somos profissionais apenas porque não temos a manutenção de uma companhia que tem incentivo de cultura pelas leis, só não contamos com esses mecanismos. Mas produzimos espetáculos, pesquisas e não vivemos só de festivais”, conta.

Para ele, dançar em Joinville é enfrentar a falta de recursos. “É muito complicado porque a gente tem o festival e o Bolshoi, então os recursos vão para esses grandes nomes. A gente acaba produzindo com o que tem, o incentivo é zero, o que a gente tem é a vontade das pessoas”, destaca Fernando.

Além da falta de incentivo financeiro, romper barreiras culturais também é desafio em Joinville. O professor de dança Leonardo Manoel, que coordena o grupo de dança D Dance Roots, da Escola Estadual Doutor Tufi Dippe, começou a dar aulas em uma oficina de dança no contraturno escolar em 2012. “Antes mesmo de colocar a dança para as crianças foi necessário fazer a escola se adequar a isso, já que as escolas estaduais são bem engessadas. Se apresentar era um desafio, então a gente foi rompendo barreiras com os alunos, os professores e a comunidade”, relembra.

O grupo se apresenta na Mostra Dança Joinville e, segundo Edson, que organiza o evento, é perceptível a evolução dos bailarinos. “Eles começaram a trazer crianças que nunca tinham entrado no Juarez Machado, pais, vizinhos, parentes que nunca haviam sido convidados a participar. No começo, em 2012, parecia uma rinha de galo, mas hoje essa mesma equipe chegou num grau de excelência em que o coordenador se dá ao luxo de dizer que eles já conhecem tudo. Que grupos se sentem tão à vontade para que o coordenador possa deixá-los sozinhos e ir cuidar da luz e do som? Para nós é uma recompensa muito grande ver que a mostra teve a oportunidade de apresentar à comunidade um trabalho sério, de relevância, que teve um impacto. Daqui a vinte anos eu posso encontrar uma dessas crianças e ela vai se lembrar”, fala Edson.

Para Leonardo, a mostra é uma oportunidade de integração com os outros grupos da cidade em meio a falta de incentivo. “A gente se sente sozinho porque trabalha, mas não tem ninguém para apoiar. Depois do festival a gente trabalha sozinho, cada um no seu espaço, dificilmente se encontra. Se não fosse a mostra, a gente não teria palco, nossa escola ficaria lá no nosso pátio”, destaca Leonardo.

Para quem vem de fora, impressão é de que Joinville respira dança durante o ano todo – Divulgação/Festival de Dança

Apoio do poder público

Hoje, segundo a assessoria da Agência de Desenvolvimento Regional de Joinville, além do repasse de R$ 2 milhões feitos realizado no ano passado com recursos da Celesc a partir da Lei Rouanet, o Estado envia R$ 1,6 milhão ao Bolshoi por ano. Ao 35º Festival de Dança de Joinville, o governo estadual repassou R$ 900 mil via Fundação Catarinense de Cultura.

Em Joinville, de acordo com a assessoria de comunicação, existem dois programas que incentivam a dança. Um deles é a Escola Municipal de Ballet, que abre matrículas anualmente para alunos de qualquer idade e oferece aulas de ballet clássico e jazz. A mensalidade custa R$ 60 e há edital para bolsas de estudo. “A formação dura de oito a nove anos, já que o ballet vai até o oitavo, mas o aluno fica mais tempo para estágio e acompanhamento”, explica a coordenadora Ana Beatriz.

O outro é o programa Dança na Escola, oferecido para alunos de 24 das 84 escolas de ensino fundamental da rede municipal da cidade. Segundo o secretário de educação, Roque Mattei, todas as escolas interessadas podem aderir ao programa. “Depende do perfil da escola, mas nada impede de alunos de outras escolas participarem de um outro núcleo”, explica. Segundo ele, os projetos geram mini festivais que são apresentados à comunidade.

De acordo com o presidente da Anacã, o poder público falha em não valorizar a dança em Joinville além do festival. “Joinville tem o Festival de Dança e, para a maioria dos políticos, isso é o que basta”. Para o presidente do Instituto Festival de Dança, que vê os recursos repassados ao evento diminuírem a cada ano, falta uma visão maior sobre a cultura. “A situação da arte e cultura está um caos, mas o caos da educação, saúde e segurança vem antes. Então é difícil cobrar alguma coisa. Não tenho sentido em todos esses anos, com exceção da época do Luiz Henrique da Silveira, uma visão maior da cultura”, fala.

Enquanto a companhia, o curso e o teatro dedicado à dança não saem do papel, os bailarinos da Capital Nacional da Dança aproveitam o festival, que acontece até o dia 29 de julho.

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