Reportagens

Centro de Bem-Estar Animal: cinco anos após inauguração, protetores alegam ineficiência e distanciamento

Com orçamento mensal de cerca de R$ 110 mil, protetores alegam que cirurgias e tratamentos mais complexos não são realizados no local. Além disso, a falta de proximidade com a população também é alvo de críticas

“Eu sempre ligo no 156 só por desencargo de consciência, pra poder dizer que fiz o que recomendam, mas todo mundo sabe que não funciona e nós acabamos fazendo o trabalho deles. Somos nós que recolhemos, tratamos e conseguimos lares, às vezes demora, às vezes eles ficam nas nossas casas, mas a gente faz o trabalho porque ama, sabe que é importante e sabe que se não fizermos, eles vão morrer na rua”. O desabafo de uma das inúmeras protetoras independentes que atuam na cidade tem como alvo o poder público municipal, especificamente um dos órgãos mantidos e gerido pelo Executivo, o CBEA (Centro de Bem-Estar Animal) do município. Para a protetora, que teme se identificar e sofrer retaliação por parte dos servidores que atendem à demanda dos animais na cidade, o local que deveria servir de amparo aos animais doentes abandonados não supre qualquer necessidade da população. “Se você liga, demora, o animal é capaz de morrer antes mesmo de ter uma resposta e, muitas vezes, quem quer denunciar não tem condições de levar o animal até lá e eles não vão até a população, não existe essa ligação”, lamenta.

Para ela, que mora na zona Sul da cidade, o CBEA repete o que esses animais que deveriam ser os alvos das ações já sofreram, o abandono. “Descaso. Esse é o sentimento que eu tenho em relação ao Centro de Bem-Estar. Os animais estão se multiplicando nas ruas da cidade, quem não vê nas áreas nobres da cidade poderia dar uma rápida passada na periferia e notar o tamanho da população de animais abandonados. Claro que não podemos eximir os tutores dessa culpa, mas o poder público não pode também lavar as mãos desse jeito. Se não querem cuidar por amor, que o façam por uma questão de saúde pública”, enfatiza.

Inaugurado em abril de 2012, o CBEA e suas atividades são regidos pela lei complementar 360/2011 que institui o Programa de Proteção Animal em Joinville além de nortear diversas ações e atividades, como as inerentes ao Centro de Bem-Estar Animal. Instituído ainda no governo Carlito Merss, em dezembro de 2011, quando da assinatura da lei, o CBEA é alvo de muitas críticas por parte dos protetores e da população, que vê na unidade um local que não efetiva os serviços que deveriam ser oferecidos aos animais e à comunidade joinvilense. “A população prefere recorrer às ONGs e aos protetores que realmente aparecem nos seus bairros e tratam dos animais do que a um órgão da prefeitura que, além de não ir até a população, ainda burocratiza o atendimento e deixa a população sem o serviço solicitado”, destaca a protetora.

De acordo com a última atualização do controle, o CBEA abriga 76 animais, 45 deles em tratamento – Phelippe José/Divulgação

Moradora da mesma região, Marli Silveira sequer conhece o trabalho desenvolvido pelo CBEA e responsabiliza a própria prefeitura pelo desconhecimento por parte da população. “A gente simplesmente não sabe o que fazer e olha que o que não falta é cachorro largado e doente na rua. E você acha que o pessoal que trabalha o dia inteiro, em casa ou fora, tem a obrigação de saber que existe esse espaço? Eles nem divulgam. Aqui em casa nunca passou ninguém pra falar o que eu posso fazer e também não vejo ninguém deles recolhendo. Esses dias teve um ‘guapequinha’ que a moto pegou aí no meio da rua, o coitado dava cada grito que era de doer. Ele nem estaria na rua se eles recolhessem. Deve ter morrido na rua mesmo”, conta. Tutora de dois cães, Marli adotou recentemente um filhote que apareceu no seu portão. Para a alegria da dona de casa, dessa vez o bichinho é um pouco mais independente, como são conhecidos os gatos. O nome dado foi inspirado no personagem famoso que era sempre enganado por um rato. Cinza e de olhos verdes, Tom apareceu na casa de Marli. Chegou e ficou. “A gente já tinha dois cachorros, vira-lata mesmo, eu não ia deixar ele na rua pra esses cachorros da rua pegarem ele, alguém atropelar ou dar veneno. Vai ficar aqui sim, acho que os cachorros até gostam dele”, diz enquanto o gatinho desfila sendo observado pelos outros dois companheiros de casa.

Marli acredita que não precisa de muito trabalho, para ela o governo municipal deveria investir em três ações que, a seu ver, são simples e não devem custar muito. “Pra mim eles deveriam fazer três coisas que eu acho que nem custa tanto assim. Primeiro, conversar mesmo com as pessoas, fazer uma campanha, ir de casa em casa e explicar que não se abandona animal na rua assim. Depois, recolher esses que já estão aí, são tantos. Pra finalizar, castrar os bichinhos e isso não deve ser caro, a gente que é pobre dá conta de fazer nos nossos, pra eles deve ser ainda mais barato”, explica.

Vereadoras defendem terceirização de serviços

Para a vereadora Ana Rita Negrini Hermes (PROS), uma das representantes da causa animal nesta legislatura, a população joinvilense está cada dia mais consciente da importância da proteção animal, embora boa parte ainda desconheça ou ignore tudo que envolve a proteção. “A consciência mundial das pessoas está mudando em relação aos animais e, felizmente, não há como frear isso. Em Joinville, essa consciência foi traduzida nas urnas, com duas vereadoras da causa animal eleitas, e esse olhar diferenciado é reflexo de um trabalho de conscientização muito forte realizado pelas ONGs. Claro que vem nesse ciclo mundial, mas as ONGs joinvilenses tem um papel fundamental e a população tem todo o direito de ficar frustrada com o trabalho do CBEA”, afirma.

A vereadora, que participou efetivamente das discussões que originaram, posteriormente, o CBEA, explica que no momento das reuniões do então Fórum Municipal de Bem-Estar Animal – criado em 2010 – chegou-se à conclusão de que Joinville necessitava de um CBEA, porém, hoje Ana Rita critica a falta de gestão que incorre em um atendimento que não condiz com as necessidades da população.  “Começou que nunca faziam castração, quase nunca operavam, quase nunca atendiam, recebiam lá animais que a população levava ou até o poder judiciário, mas sempre com dificuldade. Então, as ocorrências passaram a ser feitas através do 156 da prefeitura e, mais tarde pela ouvidoria. Assim, o cidadão comum ligava e informava um atropelamento, por exemplo, mas o CBEA atende quem está na frente, sem controle do que é urgente, do que precisa ser feito com urgência e continua assim. Por mais que a gente tente interferir, que a gente se reúna para que as coisas sejam mais ágeis, continua. Acho que toda a gestão do CBEA precisa ser repensada porque como está ele continua a não atender as necessidades que a cidade tem”, afirma.

Apesar da crítica, Ana Rita reconhece o trabalho que está sendo realizado no que diz respeito a castração e chipagem dos animais, embora para ela ainda seja um começo. “A Sema (Secretaria do Meio Ambiente) vem fazendo um trabalho na castração que não acontece no CBEA. Então, eles fizeram uma licitação, fizeram convênios e estão fazendo, ainda é pouco, mas é melhor do que aquele cenário que tínhamos”, diz. Neste ano, de acordo com a prefeitura, estão previstas mais de 6 mil castrações através do Programa de Controle Populacional de Cães e Gatos. Até o momento, cerca de 2.800 já foram realizadas. Para Ana Rita, este modelo de convênio deveria ser adotado também para o caso de tratamentos aos animais feridos e acidentados. Ela afirma que desta forma o tratamento seria ampliado.

Hoje, o CBEA conta com quatro veterinários e uma coordenadora responsável técnica que trabalham em dois turnos de seis horas. A quantidade de profissionais em relação ao atendimento prestado também é alvo de críticas da vereadora e protetora animal. Para ela, um revezamento onde um dos veterinários ficasse livre para atender a população in loco seria uma alternativa razoável. “Me parece muito veterinário pra só dar remédio para setenta animais”, avalia. “Eu me considero realmente frustrada em relação à situação do não atendimento que temos hoje no CBEA. Se você chegar lá com um cachorro machucado, eles vão te mandar embora, eles não vão te atender. Eu acho que eles deveriam fazer mais convênios com clínicas e, aos poucos, ir desativando o próprio CBEA porque se não atende as emergências, acaba que as pessoas resgatam, as ONGs são muito pressionadas, muito cobradas”, desabafa.

Autora do projeto de lei ordinária 15/2017 que trata da obrigatoriedade de publicação on-line semanal de uma lista de demandas e denúncias recebidas pelo município relativas ao bem-estar animal, a vereadora Tânia Larson (SD) também cogita a possibilidade de terceirização dos serviços que estão na pauta do CBEA. “Se cogita a terceirização porque o custo é muito mais em conta. Hoje, o que se faz pelo poder público é um valor três vezes maior. Se você terceiriza com uma ONG, seja qual for, o custo é real, no valor da proteção, porque a ONG vai cotar onde é mais barato e pronto”, explica.

De acordo com prefeitura, orçamento médio mensal é de R$ 110 mil – Phelippe José/Divulgação

Atualmente, de acordo com o município, o valor mensal gasto pelo CBEA, incluindo custeio de funcionários, vigilantes, material de limpeza, medicamentos, água, luz, telefone, entre outas é de aproximadamente R$ 110 mil.

Em acordo com a visão da colega Ana Rita, Tânia, que também foi eleita com a bandeira da causa animal, acredita que o Centro de Bem-Estar Animal deveria funcionar com uma gestão diferente da que hoje é aplicada. “Não estou desvalorizando os funcionários de lá, eles são ótimos, mas tem que fazer uma forma de gestão diferente”, analisa.

Outro alvo de críticas das duas vereadoras é o procedimento utilizado para que os animais que passam por tratamento no CBEA sejam adotados. Segundo elas, além de uma exposição maior na internet utilizando as redes sociais, feiras semanais deveriam ser realizadas para conseguir suprir a demanda e fazer com que haja uma rotatividade maior. “Tem que ter feira de adoção, pra mim, tinha que ter feira semanalmente no CBEA. E deve se levar em consideração ainda que há o auxílio do abrigo animal que recebe alguns animais que saem do centro”, comenta Tânia. “As adoções têm acontecido, mas, por exemplo, eles poderiam ter um Facebook para anunciar os animais em adoção. Eles compartilham no site da prefeitura, mas isso não chama a atenção”, destaca Ana Rita.

Segundo a prefeitura, até junho deste ano, 25 animais que receberam alta médica no CBEA foram encaminhados ao Abrigo Animal. Ainda de acordo com o governo municipal, uma obra de reforma e adequação da estrutura do CBEA está sendo finalizada, no valor de R$ 250 mil. Atualizado até o dia 17 de julho, o relatório de controle aponta uma lotação de 76 animais, 45 deles em tratamento.

Comentários

comentário

Categorias
Reportagens