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Desinformação ainda é empecilho à doação de sangue em Joinville

Estoque do Hemocentro Regional da cidade oscila diariamente e unidade investe em campanhas de divulgação

As portas do Hemocentro Regional de Joinville se abriram para os doadores às 7h na última quinta-feira (13), assim como acontece todos os dias. E, assim como acontece todos os meses, Elvis Gunther Dahnert, de 28 anos, chegou pouco depois do início do expediente. Antes do ponteiro chegar no número nove, ele já estava sentado em uma salinha onde há apenas duas cadeiras reservadas para doadores. Diferente do que acontece na sala maior, visível ao fundo do corredor, onde a doação de sangue pode ser realizada simultaneamente por várias pessoas, ali, naquela sala pequena, apenas duas pessoas podem realizar a doação por vez.

O ato é rotina desde 2011, quando o estudante e fiscal de serviços da Companhia Águas de Joinville fez a primeira doação de sangue. De lá pra cá, a presença de Elvis é constante no Hemocentro e a única coisa que mudou foi a frequência e o tipo de doação. Em 2013, dois anos depois de vestir a camisa de doador, Elvis conheceu, pelo cunhado, a doação de plaquetas. “Durante uma ligação, meu cunhado comentou sobre a doação de plaquetas. Alguém, que agora não me lembro quem era, o convidou e como ele sabia que eu era doador, ele me ligou e comentou, foi aí que começou”, conta.

A doação por aférese é um processo no qual os componentes são “separados” do sangue total, ou seja, no caso da doação de plaquetas por aférese, no momento em que é feita a coleta, uma máquina realiza o processo de separação apenas desse tipo de célula, enquanto os demais componentes do sangue são devolvidos ao doador. Por se tratar de um procedimento mais complexo, o tempo de doação é mais demorado do que o de uma doação de sangue, que dura, em média, de 7 a 10 minutos. Já a doação de plaquetas por aférese leva, em média, 55 minutos, sem contar o procedimento de “triagem” do doador.

Elvis é doador de sangue desde 2011, mas foi em 2013 que iniciou as doações de plaquetas – Adrieli Evarini/Paralelo

As plaquetas são produzidas pela medula óssea e funcionam como uma barreira que evita sangramentos em casos, por exemplo, de vasos sanguíneos lesionados. Os pacientes com baixa contagem de plaquetas são os beneficiados por este tipo de doação e essa baixa é ocasionada por doenças como leucemia, câncer e anemia aplástica. Além disso, pacientes que passaram por procedimentos ou tratamentos como cirurgias cardíacas, quimioterapia, radioterapia e transplante de medula óssea são beneficiados pelas plaquetas colhidas nos hemocentros. Atualmente, os hemocentros regionais de Joinville, Blumenau, Criciúma e Florianópolis realizam a captação de plaquetas por aférese.

Para Eliane do Rosário Brick, responsável pelo setor de captação de doadores, a informação é a principal arma para desmistificar medos e mitos que cercam as doações, sejam de sangue, plaquetas ou medula óssea. “Claro que tem aquelas pessoas que tem medo de agulha, esse medo é difícil a gente conseguir tirar, mas, por exemplo, há pessoas que não doam pelo medo de contaminação. Em pontos como esse que a informação pode ajudar a mudar o cenário”, destaca. O sangue, seja na doação de sangue, seja na doação de plaquetas, não tem qualquer contato direto e externo com as máquinas. Além disso, os materiais utilizados para o procedimento são estéreis e de uso único, ressalta Eliane.

Com experiência para falar, Elvis, que já tem 25 doações no currículo entre sangue e plaquetas, garante que a única pequena dor é a da “agulhada”, depois o procedimento é tranquilo. Ele também ressalta a segurança do processo. “Eu sei que muita gente ainda tem receio por desinformação, mas não há perigo algum, olha só”, conta enquanto olha para a máquina ao seu lado. “O que a gente está doando é vida. Não vai fazer diferença pra mim, mas para quem recebe vai fazer e muita”, completa.

As plaquetas doadas por Elvis durante os 55 minutos em que esteve sentado na poltrona, a essa hora já estão correndo no sangue de um paciente, caso contrário, não teriam mais serventia, pois como explica Eliane, as células do sangue têm um “prazo de validade” e no caso das plaquetas esse prazo é bem curto, de apenas cinco dias.

Elvis conta que as pessoas são muito curiosas e o enchem de perguntas quando sabem que ele é doador, especialmente quando sabem que a doação dele é um pouco diferente daquele padrão visto geralmente em campanhas na televisão. “As pessoas são curiosas e querem saber como é a doação de plaquetas”, diz. E, para ele, o ato de doar, que já se tornou natural, é um ato de cidadania. “É cidadania, é responsabilidade social. O sangue é substituível e só o ser humano pode fazer isso, é o que me move. Eu sei que estou contribuindo para a saúde de alguém”, enfatiza.

Para Eliane, a doação de plaquetas por aférese possui inúmeras vantagens, mas a principal delas é a possibilidade de coletar uma grande quantidade da célula, pois o procedimento de separação, que seria realizado depois da doação – como acontece nos casos de doação de sangue total – é realizado automaticamente, o que permite uma coleta muito maior de plaquetas. “Na doação por aférese, o volume de plaquetas coletadas de um único doador é maior, o que beneficia também um maior número de pacientes”, diz. Ela explica ainda que para a produção de uma dose transfusional de plaquetas é necessário o esforço combinado de oito doadores de sangue, ou seja, para a produção de uma “bolsa” de plaquetas é necessário que oito bolsas de sangue total sejam coletadas.

Elvis, o doador que chega cedinho ao Hemocentro e que fazia campanha por doação de sangue na empresa em que trabalha, conta que existem dois fatores que diferem a doação de plaquetas da doação de sangue: o tempo de doação e o tempo total do procedimento. Ele costuma ir até o Hemocentro dois dias antes de realizar a doação para fazer a contagem de plaquetas. “Costumo vir uns dois dias antes para fazer a contagem porque se der errado, se o volume estiver baixo, eles conseguem reagendar e chamar outro doador, assim não fica um buraco na agenda de doações”, conta. A doação de plaquetas por aférese é diferente da doação de sangue, quando o doador chega a qualquer momento e pode doar caso esteja apto. A coleta por aférese é feita com agendamento prévio.

A doação é concluída após cerca de 55 minutos de coleta, embora a média de permanência do doador no local seja de cerca de duas horas entre o acolhimento na recepção, a triagem e a doação. Durante todo o procedimento de doação, uma solução anticoagulante é utilizada para evitar a formação de coágulos e conservar as células coletadas. No momento do retorno, Elvis conta que sente algumas sensações características, mas Eliane explica que essas sensações variam muito de doador para doador. “Uma sensação de metal e formigamento na boca, mas é bem suave assim, é aquele gostinho de ferro mesmo”, explica o doador. A responsável pelo setor afirma que é exatamente o anticoagulante que pode fazer com que o doador sinta essa sensação da presença de ferro.

Boa parte das plaquetas doadas por Elvis são utilizadas no Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria e este é um fator que passou a ser, há cerca de dois meses, mais um motivador para a doação. “Agora eu tenho uma filha que vai completar dois meses e isso me motiva ainda mais, ver que eu posso estar ajudando e ajudando crianças. Não tem como mensurar o preço disso”, finaliza.

Estoque oscila diariamente e ações de incentivo à doação chegam até mesmo por e-mail

Os doadores de sangue cadastrados no Hemocentro Regional de Joinville ouviram seus telefones tocarem e, na caixa de entrada de e-mails, o remetente “HEMOSC” indicava que a doação era mais que bem-vinda na última semana. Ações como essas são comuns, segundo Eliane do Rosário Brick, responsável pelo setor de captação de doadores. “Realizamos diversas campanhas, ações em empresas e escolas e essa comunicação com os nossos doadores. Precisamos frisar que todos os hemocomponentes são essenciais. Nosso estoque oscila diariamente e não podemos trabalhar em ações pontuais, trabalhamos diariamente para captar doadores e manter nosso estoque”, ressalta.

Sara faz parte de um dos grupos de tipo sanguíneo mais comum, o A+, mas nem por isso deixou de ser doadora e iniciou as doações ainda aos 16 anos – Adrieli Evarini/Paralelo

Embora as mulheres ainda sejam o percentual mais baixo entre os doadores, de acordo com os dados do próprio Hemocentro que, neste primeiro semestre recebeu 38% de doadoras mulheres, a estudante Sara Rocha Fritz faz questão de ser uma entre elas desde os 16 anos. Hoje, aos 18, já pode realizar o procedimento sozinha. “Menores de idade podem realizar doação sim, desde que acompanhados dos pais”, explica Eliane. Para Sara, que realizou sua quarta doação no início do mês de julho, o incentivo partiu de dentro de casa, da própria mãe. “Minha mãe sempre incentivou, acho que porque ela queria muito doar, mas não pode por causa do peso”, conta.

Dentro da faixa etária mais assídua nas doações deste primeiro semestre – 38% dos doadores deste período têm entre 18 e 29 anos – Sara faz parte de um dos grupos de pessoas com tipo sanguíneo com mais ocorrência, o A+, que representa, aproximadamente, 34% da população. Para ela, muitas pessoas ainda têm medo da doação porque não conhecem o processo e nunca visitaram o hemocentro para ver de perto como acontece a doação. “Acho que conversando as pessoas acabam perdendo o medo. É natural, todo mundo tem medo do que não conhece”, diz.

A estudante, que também pretende se cadastrar para se tornar uma potencial doadora de medula óssea, vê sua ação como uma pequena ajuda em uma grande rede de solidariedade. “Eu sempre tive vontade de ser doadora. É daquelas coisas que não é difícil de ser feita, não traz prejuízo nenhum para quem faz e pode ajudar muito alguém”, destaca.

Atualmente, o Hemocentro Regional de Joinville atende a 24 municípios no Norte de Santa Catarina e, nestes locais, pelo menos 25 hospitais e clínicas conveniadas são assistidas pelo hemocentro.

 

*O Hemocentro Regional de Joinville atende de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h15 e um sábado a cada mês, das 8h às 11h30 (o próximo sábado em que haverá expediente é no dia 12/08/2017)
Endereço: Avenida Getúlio Vargas, 198 – ao lado do Hospital Municipal São José
Telefone para contato: (47) 3481-7400

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