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Número de pretendentes ainda é maior que o de crianças na fila de adoção em Joinville

Para assistente social, perfil procurado é o maior obstáculo para igualar os números

A independência e a personalidade da pequena Marcela* ainda surpreendem Silvia e Júlio Betat. Aos dois anos de idade, os pés dela correm rápido, seja qual for o destino. Os olhares deslizam rapidamente entre a cama da cachorra, a mesa de jantar e a bancada com as frutas expostas. A decisão é tão rápida quanto seus olhos e pés e quando os pais se dão por conta, sem pedir nada, Marcela já sai tagarelando pela sala enquanto mastiga a maçã que acabou de morder generosamente. Os brinquedos espalhados pela casa recém construída dão o clima de uma criança ativa na família. E sete meses atrás esse cenário de brinquedos para um canto, criança correndo atrás de cachorro em outro era impensável para o casal de 46 e 51 anos.

Silvia aguardou mais de seis anos até que sua segunda filha chegasse em casa – Adrieli Evarini/Paralelo

Foi no início de dezembro de 2016 que Marcela chegou, um pouco tímida, mas já muito forte e segura de si. Depois de mais de seis anos de espera, a adoção tinha finalmente sido concluída e Silvia pôde ser mãe pela segunda vez. E, pela segunda vez, mãe do coração.

Mas, ao contrário de todo o ímpeto da destemida Marcela, Lucas*, o filho calmo, está na outra ponta. Doce. É assim que a mãe, visivelmente orgulhosa do seu garoto de 13 anos, o define. Ao contrário de Marcela, que chegou aos dois anos ao lar, Lucas entrou em casa no colo da mãe. Ele foi adotado com apenas um mês de vida, em 2004, após os pais passarem por um período de espera de cerca de três anos na fila. Ela, foi adotada aos dois anos, em 2016, após mais de 6 anos de espera.

A nítida diferença de personalidade entre os filhos também faz parte do contexto de mudança da própria família que, lá em 2004 esperou menos tempo e entrou com um bebezinho em casa, o que, conta Sílvia, foi motivo de críticas de muita gente alheia aos sonhos do casal. “É importante que as pessoas entendam que cada casal tem seus sonhos e para mim foi importante viver aquele momento do recém-nascido. Não nasceu da minha barriga, nasceu do coração, como a gente diz, mas eu precisava de todo esse processo de cuidado com um recém-nascido”, explica.

Agora, 13 anos depois, a experiência é diferente. Marcela chegou aos dois anos, a fase de já querer conhecer, a fase de explorar e o primeiro medo de Silvia se dissipou na primeira noite da filha em casa. “Eu tinha muito receio que ela chorasse durante a noite, que ela ficasse com medo, mas não. Ela é muito forte, não chorou, não ficou com medo. Ela é muito forte”, conta. E é essa força que Marcela demonstrou desde o primeiro dia no novo lar que encanta a mãe que a olha com admiração. “Quando eu vi a foto dela, quando eu soube que era uma menina, a gente imagina uma princesinha né? Calma, tranquila. Ela definitivamente não é calma. É uma princesa, a nossa princesa. Ela não pede nada, o que quer, ela mesmo dá um jeito e busca”, diz.

Para Silvia, a adoção abriu as portas da maternidade, mas não foi novidade. A família já possui um histórico de “filhos no coração”. São sobrinhos e até mesmo irmãos que chegaram pelo coração e o conquistaram. Mas, apesar de conhecer e viver essa experiência em casa, a enfermeira reconhece os desafios, as dores e alegrias de construir a sua família.

Sem conseguir engravidar a não ser através de tratamentos caros e, de certa maneira, dolorosos, Silvia e Júlio decidiram entrar com o processo e se candidatar à adoção. Depois de três anos, nasceu Lucas, gerado por outra mãe, criado com o amor de Silvia. “Ele tinha um mês, eu pensei que esse aconchego seria natural, mas não foi assim, mesmo tão bebê ele resistiu um pouco antes de se aninhar em mim. O cheiro, talvez. Mas, aconteceu”, lembra.

Para ela, a criação dos vínculos afetivos é fator fundamental no processo de adoção e para que aquele sentimento se torne, de fato, amor.  E este vínculo não pode ser criado durante o processo, acredita Silvia, e sim, no dia a dia. Ela conta que, no caso da adoção de Marcela, depois que todos os documentos estavam em conformidade com a Justiça e iniciou o processo de aproximação entre os pais e a criança, eles tiveram cerca de duas semanas para estabelecer esse vínculo. “Eram duas semanas, mas também não havia visita todos os dias e nos dias em que a visitávamos, o encontro durava uma hora. Não tem como estabelecer um vínculo de mãe e filha”, destaca. Apesar disso, ela conta que no primeiro dia, em meio a brincadeiras de “pega pega”, Marcela já a chamou de mãe. “Ela corria e eu já cansada, então ela dizia ‘corre, mamãe’”, lembra.

Em casa, o carinho foi imediato, mas a aproximação, o fortalecimento dos vínculos e a transformação do carinho, do desejo de ser mãe em amor, foi um processo. “É um processo, é a convivência. Lembro que a primeira vez que eu disse que a amava, ela sorriu, mas não respondeu, não retribuiu. Hoje ela sabe que eu a amo e eu sei que ela nos ama”, diz.

Para Silvia, hoje a família está completa – Adrieli Evarini/Paralelo

Para Silvia, os casos em que pais passam por todo o processo, conseguem a adoção e, por diversos motivos “devolvem” a criança ou adolescente, são compreensíveis e ela ressalta que não se deve romantizar esse processo pois, embora seja a maior alegria dela hoje, o processo, a adaptação e essa criação de vínculos não é simples como se pode imaginar.  “Hoje eu te digo que entendo casos de devolução. É difícil. Isso que ela é pequenininha, imagina os maiores”, analisa.

“Eu não posso julgá-las. Foi também um ato de amor, de permitir que eles fossem felizes e eu ganhei estes presentes”

Silvia Betat, mãe

Em ambos os casos dos filhos, Silvia vê a doação das mães biológicas como um ato de amor. “Elas abriram mão para que eles pudessem ser felizes. O abandono, para mim, é muito mais quando você deixa passar necessidade e não faz nada, não abre mão para que essa criança seja feliz”, finaliza.

A conta que não fecha

Hoje, de acordo com Olindina Maria da Silva Krueger, assistente social que atua no Fórum de Joinville, são 372 candidatos esperando na fila para efetivar a adoção de um filho na cidade. A conta que parece simples é muito mais complexa. Enquanto mais de 300 pessoas querem adotar, 147 crianças sonham com um novo lar enquanto vivem em abrigos em Joinville. Mas, a espera persiste tanto para quem sonha com um filho, como para quem se imagina em um novo lar.

Segundo Olindina, a maioria das crianças que aguardam pela adoção em Joinville tem, em média, 10 anos de idade e pertencem a grupos de irmãos. “E não há pretendentes que tenham interesse por este perfil de crianças”, afirma. E é neste ponto que a conta, aparentemente simples, começa a ficar mais complexa e a levar outros fatores em consideração.

Embora afirme que o processo de adoção não é demorado na cidade, Olindina admite que o que torna a intenção em adotar em realidade um processo distante é a escolha que os pretendentes fazem em relação ao perfil das crianças desejadas. “As crianças disponíveis são aquelas que não são desejadas. Quem opta por esperar é o pretendente, quando escolhe uma criança que talvez nem tenha nascido ainda em detrimento de uma criança que está acolhida aguardando uma família”, enfatiza. Ela explica ainda que, o que chamamos de processo de adoção é, na verdade, um processo de habilitação para adoção. Este processo parte da reunião de documentação e entrada do processo, depois disso, os pretendentes passam por um curso, uma avaliação psicossocial e, então, a sentença judicial que a determina como habilitada a adotar. Encerrado este processo, a pessoa aguarda até ser consultada para a adoção com base no perfil solicitado e para o qual foi habilitada. “O processo de adoção não é demorado, pois consiste na aproximação dos pretendentes com a criança e o acompanhamento do estágio de convivência. Vai demorar o quanto for necessário para a concretização do novo vínculo”, completa.

Para a assistente social, nos casos em que os pais desistem da adoção depois que o processo está concluído e a criança já foi ambientada em sua nova residência, o que acontece é que a família não é capaz de oferecer um ambiente seguro e saudável para que essa criança possa se desenvolver plenamente. “Se configura como um ambiente familiar tão violador de direitos como a família de origem já foi”, reforça.

“Adotar é querer ter um filho. Se a motivação for distinta desta, não estará pronto para dar este passo”
Olindina Maria da Silva Krueger, assistente social

Olindina chama atenção ainda para os prejuízos que esta criança sofre ao estar em espera permanente de um novo lar. “Ela vivencia uma espera por uma família que algumas vezes não chega, trazendo prejuízos em sua formação biopsicossocial, pois ele não terá a vivência familiar que tanto contribui para a formação do ser humano”, avalia. Para a assistente social, falta aos pretendentes se conhecer melhor e saber lidar com suas expectativas e frustrações quando o assunto são os filhos.

Ela destaca ainda que o maior receio dos pais ao iniciar essa nova relação é o histórico de vida dos filhos, especialmente os mais velhos. Já para as crianças, o principal obstáculo a ser superado na relação é a confiança, porque, de acordo com ela, as crianças e adolescentes encaram os adultos de uma forma diferente. “É confiar em um adulto, pois alguns adultos já o sacanearam”, completa.

Em Joinville, de acordo com a assistente social, geralmente as crianças que esperam por um lar foram acolhidas por terem sofrido violência – psicológica, física ou sexual –, negligência e devido a dependência química dos genitores.

 

*Os nomes das crianças foram trocados a pedido da família

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