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Ensino da história e cultura africana ainda é desafio em Joinville

Catorze anos após a publicação da lei 10.639, prática ainda esbarra na formação dos professores e preconceito da comunidade

Como ensinar e valorizar a história africana e afro-brasileira a partir da matemática?

Orgulhosa por ter descoberto a resposta, Andreia Cristina Viliczinski tornou possível o que tem sido um desafio para muitos professores: colocar em prática a Lei 10.639/2003, que prevê a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileiras para os estudantes do ensino fundamental e médio do Brasil.

Andreia é professora de matemática na Escola de Ensino Médio Governador Celso Ramos, no bairro Bucarein, e desenvolveu o projeto “África – O berço da matemática” com uma turma do segundo ano do ensino médio. “Eu nunca estudei sobre o assunto, mas sabia que existia a lei. Então fui a uma reunião pedagógica e a coordenadora trouxe a obrigatoriedade de todos os professores trabalharem essa questão. Então perguntei ‘como posso trabalhar essa questão em matemática? ’, e me sugeriram que eu trabalhasse as questões estatísticas. Mas esses dados não são legais, não estimulariam o aluno em sala de aula. Então eu conheci uma revista sobre etnomatemática que começou a me trazer ideias para trabalhar essa questão”, relembra. Ela explica que a etnomatemática é um programa de ensino que prevê a aquisição do conhecimento a partir do saber e fazer, em que se estudam as questões culturais, sociais e os modos de vida de um grupo. A partir da etnomatemática, ela descobriu a afroetnomatemática, que trabalha especificamente a matemática relacionada às questões afro, e que foi o ponto de partida do projeto que foi destaque nas feiras regional e estadual de matemática.

Os vinte alunos da sala foram distribuídos em quatro equipes e cada uma delas ficou responsável pelo estudo de alguns itens que ligam a história africana à matemática, como o jogo Mancala, considerado o mais antigo do mundo, e o osso de Ishango, por exemplo. “Esse é o osso mais antigo do mundo, um fêmur de babuíno que data de 20 mil anos a.C. e que, de acordo com pesquisas, traz uma referência de números, dos primeiros indícios de contagem. Ele tem duas laterais e uma frente com risquinhos, e todos os risquinhos dão uma soma igual, de 60, e tem uma sequência de números primos. Então nós revimos todo o conceito de números primos e propriedades das operações analisando o osso de Ishango”, conta Andreia.

Uma réplica do osso de Ishango foi produzida pelos alunos de Andreia – Juliane Guerreiro/Paralelo

As equipes também estudaram matemática a partir da harpa africana de três cordas, que segundo a professora é o instrumento musical mais antigo do mundo. “Ele emite as notas musicais que nós conhecemos hoje, que foram definidas por Pitágoras. E aí os alunos trouxeram toda a história de como ele definiu as notas. E o que é uma nota musical? Uma onda sonora, que na matemática é uma função seno, e então nós trabalhamos toda a parte de trigonometria através dessa pesquisa”, explica. Outro tema foram os gráficos de sona e fractais. “Os indígenas e africanos traçavam pontos na areia e através desses pontos circulavam uma linha que não poderia passar duas vezes no mesmo local. Então, quando ele coloca os pontos, já tem noção de arranjo, combinação simples. E como naquela época eles já tinham noção de todo esse conteúdo? ”, instiga a professora. A partir dos gráficos de sona, os alunos aprenderam sobre análise combinatória e combinação simples, e com os fractais, que são repetição de formas geométricas ou formas da natureza, tiveram contato com a simetria e repetição de linhas e desenhos observados em aldeias e nas pinturas de rosto feitas para os cerimoniais religiosos. Além disso, a turma também estudou simetria e ângulos a partir da capoeira.

A professora explica que seu objetivo era trabalhar a probabilidade, que é um conteúdo de segundo ano, e que para isso queria falar sobre búzios. Seu receio, no entanto, era tocar em um assunto que não é da sua área. “Eu ia entrar na questão religiosa e precisava ter conhecimento da história. Hoje é difícil falar sobre isso, deve haver um cuidado porque há preconceito”, relembra. Além do contato com professores da escola, que a ajudaram a pesquisar e tirar dúvidas, Andreia fez contato com a Iyalorixá Jacila de Oxum, que lhe falou sobre as religiões de matriz africana. Os alunos também receberam a visita do professor Gerson Machado, que falou sobre a história do candomblé e da umbanda e sua relação com Joinville. “Os alunos tinham uma visão completamente diferente e ficaram curiosos, questionaram, a palestra foi maravilhosa”, fala Andreia. Além da matemática, o projeto interdisciplinar também envolveu os professores de português e geografia e a coordenação da escola.

Segundo a professora de matemática, tratar de um assunto que não faz parte da sua formação foi um dos maiores desafios do projeto. “Nós não temos formação para tratar disso, então para os professores de história, sociologia, geografia isso se torna mais fácil porque está no contexto de trabalho. Mas os professores de exatas têm pouca referência pra trabalhar”, explica. Ela dá aulas em dez turmas na mesma escola, e o pouco tempo para trabalhar com cada uma fez com que o projeto ficasse restrito a apenas uma sala, que por ser do ensino médio inovador, tem uma aula a mais de matemática por semana.

Para Andreia, um projeto como este exige pesquisa e dedicação, que muitas vezes esbarram na falta de motivação dos professores. “Hoje tem movimentos que destorcem o que você desenvolve, por isso eu procuro estar bem fundamentada e isso precisa de muita pesquisa. Hoje eu não vejo professores incentivados e motivados pra fazer isso. É uma história linda a que eu conto, mas não foi fácil todo esse processo. Eu passei madrugadas mandando e-mails para os alunos, cheguei à escola às cinco horas da manhã para montar a exposição. E hoje não vemos uma motivação dos professores pela questão financeira, por um contexto político”, afirma.

Projeto “África – O berço da matemática” foi destaque na feira regional e estadual (foto) de matemática – Divulgação/Paralelo

O projeto “África – o berço da matemática” foi indicado para a feira nacional de matemática deste ano, entretanto, segundo Andreia, o evento que aconteceria em Florianópolis foi cancelado.

Colocar a lei em prática ainda é desafio

Sancionada há mais de 14 anos, a Lei 10.639 representou um avanço para o movimento negro, que sempre teve o acesso à educação como uma de suas pautas permanentes. “É uma pauta que está colocada desde a abolição da escravatura e que durante décadas não foi efetivada para a população negra, mesmo que liberta, por vários motivos políticos, econômicos, e até por falta de estrutura, já que as regiões onde os negros se fixaram após a abolição eram aquelas de maior vulnerabilidade”, ressalta Jeruse Romão, professora e presidente do Fórum Estadual de Educação das Relações Étnico-Raciais.

Segundo Jeruse, pelo menos dez anos antes da promulgação da lei já haviam experiências pelo país que indicavam a necessidade de unificar a proposta em uma legislação nacional. “Desde a abolição até 2003, o movimento fomentou nos sistemas públicos pelo país experiências que apontavam que formar professores, ter material didático e pensar um currículo multicultural eram os três eixos para pensar uma escola mais democrática do ponto de vista das relações raciais. Santa Catarina tem quatro municípios que já tinham aprovado em suas câmaras leis que versam sobre o mesmo tema antes da lei federal”, relembra.

Para a professora, embora Santa Catarina tenha liderado a temática das relações étnico-raciais por muito tempo, hoje há um retrocesso na aplicação da lei. “A rede privada na educação básica não implementa, não tem interesse nisso. Eu tenho visto somente algumas experiências no ensino superior. Na rede estadual, em que pese que há discursos da importância do trabalho, isso não se efetiva. Já está na proposta curricular, mas os professores não receberam formação. Se vê a iniciativa de professores e escolas, mas não uma orientação para liberar efetivamente essa política no estado”, destaca Jeruse. Um dos exemplos disso, segundo a professora, é que o livro “Africanidades Catarinenses”, coordenado por ela e que trata da história do negro em Santa Catarina, foi distribuído às escolas estaduais sem nenhuma formação aos professores sobre como tratar do tema.

Segundo Rosemari Conti Gonçalves, supervisora escolar da Gered (Gerência Regional de Educação de Joinville), a rede estadual de ensino traz o estudo da história e cultura africana e afro-brasileira no currículo escolar, mas a prática do que está previsto na lei ainda encontra desafios. “A nossa proposta curricular sempre trouxe como um dos pressupostos metodológicos a questão de uma educação para uma autonomia de pensamento, para a problematização, buscando que na sala de aula a gente conseguisse minimizar essa diferença. Mas isso é muito forte e é complicado mudar do dia para a noite”, afirma. Ela explica que a Secretaria de Estado da Educação tem orientado os professores a trabalharem o tema permeando todas as situações de aprendizagem, independentemente da disciplina, para que o assunto não seja discutido em datas específicas, como na Semana da Consciência Negra, por exemplo. “Na nossa rede temos muitas ações que abordam o tema e o valorizam, que estão tentando modificar a questão e abordar a participação do índio e do negro como protagonistas dentro da história do nosso país”, completa.

“A IDEIA É BALANCEAR, EQUILIBRAR O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO LEVANDO EM CONSIDERAÇÃO QUE A POPULAÇÃO NEGRA É MAJORITÁRIA NO BRASIL. O QUE SE DISCUTIA ANTES DA LEI, QUE ERA NOS INSERIR NAS POLÍTICAS DE INCLUSÃO, A GENTE NÃO QUER. A GENTE NÃO QUER POLÍTICA DE INCLUSÃO PORQUE A GENTE ENTENDE QUE SOMOS A MAIORIA DA POPULAÇÃO. QUEREMOS POLÍTICAS QUE EQUILIBREM AS RELAÇÕES NO TERRITÓRIO ESCOLAR”.

Jeruse Romão, professora e presidente do Fórum Estadual de Educação das Relações Étnico-Raciais

 

Na rede municipal, segundo a professora de apoio técnico-pedagógico Denize Aparecida da Silva, a discussão faz parte do currículo escolar conforme a lei, mas a prática tem avançado aos poucos. “É óbvio que ainda não temos uma cultura de rede porque temos, infelizmente, uma dependência muito grande das pessoas para que esse trabalho seja feito de forma efetiva e positiva. Isso já acontece, mas gostaríamos que acontecesse mais. O currículo está posto, é trabalhado sim e como ele é trabalhado se discute o tempo todo”, afirma.

Uma dificuldade em tratar do tema, segundo Denize, é admitir o próprio racismo. “Um dos grandes desafios é que discutir é difícil porque a pessoa fica numa briga contra aquilo que ela tem como caminhada. ‘Por que eu não consigo falar a palavra negro?’, por exemplo. Eu tenho que começar a pensar a partir da própria construção do ser pessoa, do ser professor”, explica.

Nélida Alves Hoepers, integradora de educação básica e profissional da Gered, conta que em 2015 houve um trabalho da instituição com os professores para reforçar o entendimento de que esse conteúdo não deveria ser proposto apenas no Dia da Consciência Negra. “Fizemos trabalhos com todos os componentes curriculares tentando rever as diretrizes e entender de que forma esse olhar poderia entrar em casa bimestre. Durante esse trabalho, os professores perceberam que na formação deles na graduação também faltou essa história. A agência formadora não dá subsídios para o professor para que ele saiba contar essa história”, diz.

Segundo ela, há também um receio sobre como trabalhar com essas questões. “Quando chega na parte do preconceito com as religiões de matriz africana, por exemplo, o professor recua. Isso é que falta, buscar, pesquisar, ver a cientificidade que tem e o quando é importante que o aluno conheça isso. Então não podemos dizer que em todos os períodos a gente trabalha isso, nós percebemos o quanto ainda temos que caminhar”, avalia.

A professora Jeruse concorda que um dos maiores desafios para a aplicação do conteúdo previsto na lei em sala de aula é a formação dos professores. “O fundamental desafio colocado pra gente hoje é as instituições de ensino superior formarem os graduandos já com essa concepção porque o que está acontecendo é que os futuros professores não saem formados das universidades e quando chegam na rede precisam passar por formação pra trabalhar esse conteúdo, sendo que o Ministério da Educação já existe que todo curso superior no Brasil tenha essa temática no seu programa”, explica.

“A lei representa, pra mim, um ganho como futuro historiador e professor, um marco enquanto militante do movimento negro porque é ver a luta dos meus antepassados, de quem lutou antes de nós, sendo revigorada e proposta. Mas a lei não é tudo”.

Rhuan Carlos Fernandes, integrante do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Univille

Acadêmico de História e integrante do Neab (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros) da Univille, Rhuan Carlos Fernandes sente a falta deste conteúdo. “A gente tem na universidade uma educação altamente eurocêntrica e isso também é resultante na base, na hora de ir pra escola. O professor não tem conhecimento, não tem referência de autores negros e indígenas”, diz o estudante que está pesquisando a aplicação da lei 10.639 em Joinville.

“A gente está numa luta para que a lei seja efetivamente colocada em prática porque existem muitos fatores. O primeiro é o fator racial porque trabalhar essas questões é bater em status quo. No Brasil há o imaginário de que a gente vive numa democracia racial e isso também passa pela aceitação ou não da lei e essa efetivação. O racismo institucional permeia isso, impossibilita esses acessos”, ressalta. Ele exemplifica com o caso de uma professora que quis falar sobre os orixás em Joinville, sofreu ameaças de processo por pais de alunos e recuou. “Quando os professores fazem, travam batalhas gigantescas com a comunidade”, fala Rhuan.

Para ele, falta investimento em formação para os professores, proposta vetada na época da publicação da lei. “Você tem que produzir conhecimento, formar professores, ter outra perspectiva de educação, que é uma educação de diálogo e formação, de ter uma troca entre o que está sendo ensinado e uma reflexão por parte dos professores”, analisa.

Para Andreia, a professora que descobriu na afroetnomatemática uma maneira de fazer a sua disciplina se relacionar à história e cultura africana, o apoio da escola aliado à pesquisa e argumentação sobre o tema foram fundamentais para o sucesso do projeto. “Quando os alunos percebem que você está se dedicando, o resultado também é diferente”.

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