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Dezoito meses depois de chacina, nenhum suspeito está preso

Um ano e meio após os assassinatos, inquérito não foi concluído e nenhum suspeito está preso pelas seis mortes da madrugada do dia 6 de dezembro de 2015

Bairros Fátima e Paranaguamirim, entre 3h30 e 5h30. Foram nestes dois bairros da zona Sul de Joinville e em menos de duas horas que seis pessoas foram assassinadas no dia 6 de dezembro de 2015. Adão Pereira da Silva, 37 anos, Ederson Bonette Barbosa, 27 anos e Alexsandro Muniz Evaristo, de 28 anos foram assassinados no bairro Fátima. Pouco tempo depois, Diogo da Rocha Garbari, 27 anos, Daniel Alves de Lima, 32 anos e André Manolo Corrêa, de 35, foram executados no bairro Paranaguamirim.

Adão e Ederson foram mortos enquanto estavam virados para a parede de um sobrado em construção no bairro Fátima – Divulgação/Paralelo

Dezoito meses já se passaram desde que as famílias destes seis homens enterraram seus entes queridos e até o momento os dois inquéritos que apuram as mortes não foram encerrados. Para o delegado Fabiano Silveira, responsável pelos dois casos e pela investigação unificada das mortes, o sentimento é de impotência. Além disso, o delegado explica que a falta de testemunhas e o completo silêncio da comunidade prejudicam diretamente o curso de uma investigação complexa como esta. “É uma sensação de impotência de quem investiga porque na época não houve um retorno da sociedade. Quando ocorre um crime desse, é dever do Estado investigar, mas ele afeta a sociedade local e houve um silêncio do bairro Fátima e do bairro Paranaguamirim com relação a esses crimes. Não houve qualquer auxílio da comunidade na época para que a investigação pudesse avançar”, ressalta.

O delegado conta que nenhuma testemunha se disponibilizou a colaborar com a polícia, muito pelo contrário. Durante as investigações, duas testemunhas foram identificadas, uma delas foi morta naquela mesma madrugada. “Uma foi calada pelos disparos. Ela tentou fugir. Ela se aproximou da primeira cena criminosa e ao se deparar com aquela situação tentou fugir. Foi perseguida e morta pelas costas. Isso ficou claro desde o início das investigações”, diz. A testemunha e vítima da chacina é Alexsandro Muniz Evaristo, assassinado na rua Vasco da Gama, no bairro Fátima, a poucos metros de distância do sobrado onde Adão e Ederson foram executados.

A outra testemunha identificada teria informações a respeito dos crimes que ocorreram no Paranaguamirim, mas ela se negou a colaborar e hoje sequer mora em Joinville. “A gente identificou uma única testemunha e ela sumiu do mapa. Mas, como essa única testemunha vai chegar aqui e falar alguma coisa quando o bairro todo silenciou sobre os crimes?”, avalia Fabiano. O delegado enfatiza ainda que a segurança pública não se restringe aos órgãos policiais. “A comunidade precisa se envolver”, completa.

Já judicializados, os inquéritos continuam abertos e, na última semana, diligências complementares solicitadas pelo Ministério Público foram cumpridas pela equipe responsável pelo caso. O delegado Fabiano garante que este caso só estará encerrado quando a verdade real dos fatos for alcançada. “É um caso de extrema complexidade, que demanda uma concentração de esforços diferenciada. O objetivo é buscar a verdade real e não buscar culpados. Buscamos a verdade real e a partir dela, a autoria delitiva. O nosso desafio é ter o quebra-cabeças completamente formado. Tanto da nossa parte, como do Ministério Público e da própria Justiça, este caso não está arquivado. Até porque, há outros meios de se chegar talvez a algum outro indício objetivando confirmar as suspeitas surgidas no curso da investigação ou apontar uma outra autoria, que até hoje não se tenha levantado algumas suspeitas, as circunstâncias e as motivações exatas deste caso”, afirma.

Para o promotor de justiça Cesar Augusto Engel, que assumiu os casos da 1ª Vara Criminal de Joinville, a condução nesses casos com inexistência de testemunhas, deve buscar outras alternativas que permitam a coleta de provas previstas na legislação penal e processual penal. “A prova testemunhal sempre torna o esclarecimento dos fatos mais fácil e célere. Na sua ausência, temos que esgotar todos os outros meios possíveis, com perícias e outros dados que surgirem”, explica.

Com o caso em mãos desde fevereiro, o promotor só conseguiu adentrar a fundo no inquérito a partir do final do mês de abril e na última semana solicitou algumas diligências complementares para esclarecer alguns pontos. “É uma forma de buscar suprir a carência da prova testemunhal. Para angariar elementos que possibilitem oferecer uma denúncia ou promover o arquivamento, o promotor de justiça, junto com os demais órgãos de segurança, tem o dever de buscar todas as informações possíveis”, afirma. Engel prefere não divulgar o teor das diligências para evitar possíveis insucessos. Esgotados estes trabalhos, o promotor irá avaliar a necessidade de novas diligências.

Policiais militares são apontados como suspeitos no inquérito

Entre as suspeitas que constam no inquérito, o nome de dois ex-policiais militares surge. André Mauro Padilha e Daniel Bueno Júnior são apontados como suspeitos, embora não haja, até o momento, nenhuma denúncia do Ministério Público em face dos policiais.

André Mauro Padilha foi assassinado em agosto de 2016 no mesmo bairro onde três das vítimas da chacina foram executadas e onde ele residia, o bairro Fátima. Ele, que já estava respondendo por processo administrativo e, inclusive estava afastado dos trabalhos operacionais à época da chacina, foi assassinado na casa da namorada. Segundo a mãe da jovem, que também estava na residência, três homens encapuzados chegaram e falaram “é com o André” e dispararam inúmeras vezes contra ele. À época, André movia um recurso para tentar reverter a decisão de expulsão da corporação. A decisão foi mantida mesmo após a morte. Daniel também foi expulso da corporação.

André é irmão de outro policial militar, o cabo Alexandre Mauro Padilha, também vítima de assassinato. O cabo foi baleado na noite anterior a chacina, em um bar do bairro Adhemar Garcia, a poucos quilômetros de onde três das seis mortes ocorreram. Atingido por disparos que partiram de um adolescente, o policial morreu dias depois no hospital.

A ligação entre as vítimas e os policiais militares considerados suspeitos no inquérito parte justamente do cabo Alexandre. A família do adolescente que baleou o policial no dia 5 de dezembro era empregadora de uma das primeiras vítimas da chacina. Adão Pereira da Silva trabalhava como caseiro na propriedade da família do adolescente. Entre as atribuições de Adão, que era conhecido na região, estava a alimentação de animais e o cultivo de verduras.

Ainda em 2016, o advogado dos dois policiais negou que existisse qualquer elemento de prova suficiente para colocar os dois na chacina.  Em maio do ano passado, André e Daniel chegaram a ser presos em flagrante durante uma operação que visava o cumprimento de mandado de busca e apreensão na casa dos dois. Os dois foram detidos por porte ilegal de arma e Daniel possuía medicamentos de uso proibido em casa.

O resultado do laudo balístico que saiu cerca de dois meses após a madrugada em que os crimes ocorreram comprovou o que as características das mortes já indicavam: os crimes estavam ligados entre si, tratando-se de uma chacina. Conclusivo, o laudo apontou que uma mesma arma foi utilizada em todos os locais de crime.

O delegado explica que foram representadas ações em juízo – como os mandados de busca e apreensão – em face dos policiais militares. “Foram feitas representações em juízo porque haviam indícios suficientes que apontavam eventual relação deles com os fatos”, conta.

Segundo o promotor de justiça Cesar Augusto Engel, é necessário trabalhar, primeiramente, de forma isolada e depois partir para a análise dos elementos de convergência que ligam as seis mortes. “É, de fato, uma situação complexa e, por isso demanda mais tempo, estudo e investigação. É um grande quebra-cabeça”, reforça.

Para o delegado, a esperança é de que testemunhas se disponibilizem a colaborar e que o caso que chocou a cidade em dezembro de 2015 possa ser resolvido e trazer à tona a verdade sobre o assassinato de seis pessoas. “O caso não está arquivado e mesmo que estivesse, se surgir um fato novo ele pode ser reaberto. Então, o inquérito só morre quando prescrever e um homicídio prescreve em 20 anos. Então, nós temos 20 anos desde aquele dia para resolver este caso”, finaliza.

O promotor de justiça esclarece ainda que, em razão das informações que ainda estão sendo colhidas através das diligências solicitadas por ele, e para que não possam existir ferramentas de interferência externa no trabalho de investigação, o inquérito segue sob sigilo.

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