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Mulheres rurais enfrentam invisibilidade e falta de valorização

Além de serem vítimas do machismo que atinge todas as mulheres, agricultoras também encaram a falta de acesso a políticas públicas

É das abelhas que lhe cedem o mel que a apicultora Ilse Pabst tira lições de vida. A coletividade e organização das pequenas operárias servem de exemplo à mulher de 61 anos, mãe de seis filhas, e que não desistiu do amor pelo ofício nem quando foi discriminada pela iniciativa e coragem de comprar uma moto e passar dias no mato atrás do mel que serviria para colocar dinheiro em casa.

Integrante de uma família que há muitas gerações traz a apicultura como forma de complementar a renda, Ilse aprendeu grande parte do que sabe com os pais. Em uma família de sete filhas, coube a eles ensiná-las o valor de uma mulher para a família e a sociedade. “Meu pai dizia pra nós, porque ele tinha que pôr a auto estima na gente, que uma mulher crescida e bem instruída vale tanto quanto um homem”, lembra. A mãe também foi um exemplo do que Ilse se tornaria mais tarde. “Ela ia junto também nas colheitas de mel e às vezes deixava a filha mais velha com mais cinco pra cuidar e ficava uma semana no mato”, conta.

Ouça a entrevista: Ilse Pabst fala sobre a vida da mulher rural

Desde pequenas, Ilse e as irmãs aprenderam as tarefas impostas pela vida no campo e que, muitas vezes, pela força exigida, eram atribuídas aos homens. “Eu me criei no mato com o pai como única figura masculina. Com sete anos já cortava tora pra fazer fogo. A gente aprendeu desde pequenininha a fazer trabalhos que seriam muito trabalhos de homem”, fala Ilse.

Quando casou, em 1977, a agricultora já estava acostumada à vida no campo e, por isso, não fez diferença tomar as rédeas da propriedade do casal, já que o marido tem distrofia muscular e não pode fazer atividades que exijam muito esforço. “Toda vida fui eu que fiz o trabalho pesado. Eu que buscava os cavalos, eu que tirava o leite. A maioria das mulheres na agricultura tem que enfrentar muita coisa que não é vista porque elas nem falam, fazem isso no dia a dia e acham que é normal”, diz.

Ilse Pabst sofreu discriminação quando decidiu viver da apicultura e comprar uma moto – Taís Pabst/Divulgação

Poucos anos depois de se casar, Ilse ganhou algumas abelhas do pai para complementar a renda da família. “A pequena agricultura aqui na região não sustenta uma família, então você tem que ter um ganha pão extra. A gente planta tubérculos, tem leite, ovos, tudo o que precisar, mas aquele pra pagar as contas vem mais do mel”, explica Ilse. Mas até que conseguiu fazer do líquido açucarado uma forma de sustento, a apicultora sofreu discriminação pela ideia inovadora na região. “Na época em que eu comecei aqui na região a querer criar abelhas em terrenos arrendados, porque na propriedade não podia ter, eu fui discriminada, taxada como mulher que não tá bem da cabeça. Pior ainda quando eu decidi que precisava de uma moto pra economizar as corridas e viagens longas que com um carro não dava pra fazer”, lembra. Os mesmos olhares discriminadores ela também enfrentou quando engravidava. “Enfrentei, durante alguns anos, os dedos apontados por causa da maternidade, de ter uma família com problemas genéticos. Quando eu ficava grávida apontavam pra mim ‘mais um? ’. Como se isso fosse um erro”, recorda.

Os dedos apontados, no entanto, não foram empecilho para a apicultura que hoje se orgulha pelo ensino dado às filhas e pelo presente que elas construíram com os pais, com os quais aprenderam a trabalhar desde cedo. “A realidade de hoje é muito diferente da minha, eu não tenho coragem de deixar as minhas filhas fazerem o que eu fiz, ficarem sozinhas no mato, sem sinal eletrônico. Eu acho que não eduquei elas pra isso porque eu sofri muito com isso e elas não merecem passar pelo o que eu passei”, fala Ilse.

“QUANDO A GENTE TINHA QUE FAZER UM SERVIÇO PESADO, MEU PAI SEMPRE DIZIA ‘PENSE ANTES DE PEGAR’. O HOMEM PEGA PRA DEPOIS PENSAR. ‘COMO VOU PEGAR PRA NÃO ME MACHUCAR, PRA DAR CONTA?’ É UM ENSINAMENTO QUE VOCÊ TEM QUE TER E NO SÍTIO É ASSIM MUITAS VEZES. TEM QUE ERGUER UMA MADEIRA PESADA, TEM QUE ERGUER UM GADO CAÍDO, EU TENHO QUE PENSAR ‘COMO VOU FAZER’?”

ILSE PABST, APICULTORA

Para ela, o reconhecimento ao trabalho da mulher rural é o mesmo que falta à mulher urbana. “O homem acha que quando ele trabalha fora, ele é que trabalha. Ele não vê que você é enfermeira, babá, vigilante, você é tudo na casa. Isso quando não tem um salário fixo e, quando tem, com o mesmo trabalho que ela faz o salário é menor do que o do homem”, ressalta.

O reconhecimento do trabalho da mãe se consolidou em imagens feitas por uma das filhas, Taís Pabst, em uma exposição sobre o protagonismo da mulher rural em Joinville. Como trabalho de conclusão do curso de Fotografia, Taís registrou as atividades de sete mulheres agriculturas do município. “A gente tem mulheres que se destacam aqui na nossa rua. A gente tem a Karen que o nome da propriedade dela é Karen, a referência é ela, não ele, mas o marido dela trabalha com agricultura e ela faz bolachas”, exemplifica. Com o trabalho, a fotógrafa percebeu que mesmo sendo as protagonistas, as mulheres não reconhecem em seu trabalho esse papel. “Nem toda mulher acha que pode trabalhar como um homem, que pode se igualar ao homem, elas acham que são inferiores. Fazer o ensaio foi legal porque elas puderam perceber que são importantes”, conta.

“ÀS VEZES, A MULHER VAI NA ROÇA COM O HOMEM, TRABALHA IGUAL, AÍ VOLTA PRA CASA, FAZ ALMOÇO, LIMPA A CASA E O HOMEM NÃO FAZ ISSO. ENTÃO ELA ACABA TRABALHANDO MAIS E SENDO MENOS RECONHECIDA”.

TAÍS PABST, FOTÓGRAFA

 

A partir do mel, a família de Ilse, que mora na Estrada Rio da Prata, vem investindo também no turismo rural pedagógico para complementar a renda da família. Com o programa Viva Ciranda, que leva alunos das redes pública e privada de ensino às propriedades rurais do município, as famílias visitadas recebem R$ 10 por visitante. As novas possibilidades de negócio a partir da agricultura são o foco da família no futuro próximo e, agora, eles estão investindo em um espaço para eventos. “Essa é a minha história. Não tem segredo, é só trabalho”, se orgulha Ilse.

Bebê no carrinho de mão

No pé da Serra Dona Francisca, a aposentada Edelfrida Bergmann relembra os tempos de vida no campo com o marido e os cinco filhos. Com as unhas pintadas de rosa, sentada em uma cadeira com adereços de crochê, ela olha para o passado com saudade e não reconhece um sacrifício no trabalho que fazia na roça quando o marido saía para trabalhar na indústria.

A agricultora de 77 anos sempre trabalhou no campo e foi empregada na indústria por apenas dois anos, quando teve que fazer dinheiro para pagar algumas prestações. “A gente tava sempre naquela balancinha pra ver se a gente não ia cair, mas não nos afundamos, a gente passou na lenta”, ri. Do tempo de pés descalços e lâmpadas a querosene, Edelfrida recorda que o marido a ajudava a arar a terra para que ela e os filhos plantassem o alimento que era usado no sustento da família. Ela conta que não sofreu discriminação por chefiar as tarefas rurais. “Naquela época não existia, era tudo colono ao redor e ninguém falava”, diz.

A união com outras mulheres que também eram as responsáveis pelos cuidados com a roça foi fundamental para que tudo corresse bem na propriedade. “Eu ia na roça da casa da minha vizinha quando ela tinha mato na roça, porque o marido dela também trabalhava. Aí quando ela não conseguia limpar eu ia lá limpar com ela e quando nós víamos que a minha roça tava com mais mato, porque eu não conseguia vencer, ela vinha lá em casa”, conta. Como pagamento, a ajudante ganhava um almoço da dona da roça. “Assim era lindo de trabalhar, ninguém gastava dinheiro e a gente tinha a roça limpa”, recorda.

Os cuidados com os filhos pequenos nunca impediram o trabalho no campo. “A gente levava dentro de uma caixa ou nesses carrinhos de mão, botava uma coisa dentro e levava junto pra roça. Fazia fogo num lugar pra fumaça tocar os pernilongos e assim eu fui criar meus filhos na roça”, ri. Para ela, embora tenha passado por dificuldades, a vida como mulher rural deixa saudade. “Eu não achei que foi muito difícil porque a gente achava que dava pra fazer, não era um sacrifício tão grande”, completa. Como agricultora, Edelfrida se aposentou aos 55 anos.

Mulher rural enfrenta invisibilidade

Jaqueline Coelho, assistente social da Secretaria de Desenvolvimento Rural de Joinville, conta que há muitas famílias rurais chefiadas por mulheres no município, mas que ainda enfrentam uma invisibilidade em relação às políticas públicas. “Muitos homens, diante das circunstâncias difíceis da agricultura, acabam optando em ir para a área da indústria, assim como muitos jovens. E essa mulher permanece no campo, levando nas costas a propriedade sozinha porque maridos e filhos, quando auxiliam, auxiliam no fim de semana”, afirma.

Ela explica que a mulher rural dificilmente aparece nos cadastros nacionais, como o do SUS (Sistema Único de Saúde) e SUAS (Sistema Único de Assistência Social). “Quando tem o Censo, vai chegar um pesquisador na área rural e dificilmente ele vai encontrar essa mulher pra entrevista porque ela vai estar lá no meio da roça. Ele não vai encontrar, não vai insistir e ela não vai aparecer nas pesquisas”, diz. Para ela, a invisibilidade da mulher rural nos cadastros de políticas públicas tira dessa parte da população a orientação sobre os direitos que ela tem. “A mulher rural passa por problemas que a mulher urbana também enfrenta, dificultada ainda mais pela dificuldade de se chegar à área rural, dificuldade de transporte coletivo, a propriedade que é muito longe do caminho e a falta de agentes públicos que vão até essa propriedade e que busquem essas demandas sociais”, fala.

Filha de agricultores, Taís montou exposição sobre o protagonismo feminino na área rural – Taís Pabst/Divulgação

Segundo a assistente social, com o levantamento feito pela secretaria, várias famílias da área rural em extrema vulnerabilidade, muitas chefiadas por mulheres, foram encontradas e cadastradas nos programas de acesso a políticas públicas. “Nosso trabalho está se fortalecendo com o cadastramento e acompanhamento dessas famílias”.

Jaqueline explica que o mesmo machismo que atinge as mulheres urbanas faz vítimas no meio rural. “Na agricultura é ainda mais porque, se em toda a sociedade brasileira reina o machismo, na área rural ainda é muito forte que o homem queira ser o provedor da família. E quando, por problemas de saúde, ele se afasta, tem que diminuir esse poderio e essa mulher toma as rédeas e enfrenta, tá se empoderando, criando, empreendendo, talvez pra família não, mas a sociedade às vezes olha com discriminação pra essa mulher. O que seria uma glória, enfrentar as dificuldades, encarar os desafios, se torna preconceito”, avalia.

Ela explica que há várias formas de valorizar e empoderar a mulher rural. Identificá-la, conhecer o dia a dia e saber porque ela permanece no campo são os primeiros passos. “Cabe ao poder público fazer com que todas se sintam valorizadas, orientadas, empoderadas pra assumir o seu poder não só na família, mas na sociedade”, afirma. Investir em cursos de profissionalização no campo também pode incentivar que os filhos e filhas dessas agricultoras também permaneçam no campo, mas com oportunidade de estudar e se especializar. Outro passo, segundo Jaqueline, é dar às mulheres a informação que precisam para se tornar agentes de transformação. “Que a gente não trabalhe só o bordado, mas a Lei Maria da Penha, a Constituição Federal, o Estatuto do Idoso, o Estatuto da Criança e do Adolescente, para que ela saiba que tem com quem contar e que ela mesma pode ser um agente de transformação e buscar essa transformação em todas as políticas públicas”, completa.

Segundo o Censo Agropecuário de 2006, naquela época, 12,68% dos estabelecimentos rurais eram chefiados por mulheres no Brasil.

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