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Mais de 393 mil joinvilenses vivem sem tratamento de esgoto

Apenas 31% das residências em Joinville são assistidas pelo serviço de tratamento de esgoto. No Brasil, 50,3% da população tem acesso à coleta, porém somente 42% dos esgotos são tratados

A tubulação que passa debaixo de parte do terreno da dona de casa Cristiane Casanova não existia há cinco anos atrás e só existe hoje graças ao esforço da própria família. Assim como ela, diversos outros moradores do bairro Ulysses Guimarães, na zona Sul de Joinville, só não acordam e olham para o esgoto a céu aberto porque tiraram dinheiro do próprio bolso para comprar e instalar a tubulação em seus terrenos. Embora o esgoto de suas casas não seja tratado, ao menos não está visível hoje como estava há meia década. Aos 30 anos e com dois filhos pequenos morando com ela e com o companheiro, a preocupação de Cristiane é a mesma de milhares de joinvilenses: “como fica a saúde dos meus filhos se nem esgoto tratado temos?”.

Cristiane e a família assumiram a responsabilidade do poder público e instalaram tubulação em casa – Adrieli Evarini/Paralelo

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, do Ministério das Cidades, em 2015, apenas 29,47% da população joinvilense era atendida com o serviço de esgoto. Hoje, de acordo com o órgão responsável, a Companhia Águas de Joinville, 31% dos domicílios da cidade possuem o sistema de esgotamento sanitário. Levando em consideração a estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Joinville tinha em 2016 uma população de 569.645 habitantes. Ou seja, com base nesta estimativa, hoje há mais de 393 mil pessoas vivendo sem sistema de esgoto, assim como a dona de casa do Ulysses Guimarães. No ranking do saneamento, organizado pelo Instituto Trata Brasil, entre as 100 maiores cidades brasileiras, Joinville ocupa apenas a 73ª posição.

Para Cristiane, que vive em uma das áreas atingidas pela falta de esgoto em Joinville, a sensação é de abandono pelo poder público. “É uma falta que sentimos há anos, uma sensação de descaso, de abandono. A gente contribui de várias formas. Tudo que compramos na cidade está carregado de impostos e a nossa saúde está sendo colocada à prova. E o abandono, para mim, tem uma lógica para eles. O bairro é de baixa renda, por que eles vão investir? Não é o que eles querem mostrar da cidade”, desabafa.

Apesar de na sua rua e nas ruas próximas não existirem mais valas visíveis, ela ainda lembra de como era anos atrás, quando o esgoto corria sob sol e chuva, sem qualquer proteção. “O mau cheiro era insuportável. Ainda não é o ideal, claro, mas agora, pelo menos não olhamos e sentimos aquilo. Em dias de sol parecia que aquilo evaporava e entrava em casa de tão insuportável”, conta. Para Cristiane, que vive há 26 anos em Joinville, todos eles em bairros da zona Sul e em boa parte da vida convivendo com o esgoto a céu aberto, o poder público municipal deveria voltar os olhos para os bairros da periferia da cidade. “Apesar de pensar assim, não tenho expectativa de mudança em médio prazo. Até uma máquina para vir arrumar esses buracos da rua demoram, até os terrenos da própria prefeitura estão ali, abandonados, acumulando lixo e sendo um verdadeiro matagal, imagina para organizar uma coisa assim, para melhorar a qualidade de vida da população mais carente do que a que vive na região central”, avalia.

Companhia afirma ampliar tratamento para 45% até o próximo ano

De acordo com os dados nacionais, no Brasil, 50,3% da população tem acesso à coleta, porém somente 42% dos esgotos são tratados. Para Clarissa Campos de Sá, gerente de projetos de engenharia da Companhia Águas de Joinville, os números joinvilenses, se comparados aos brasileiros, não podem ser considerados ruins, embora apenas 31% das residências sejam atendidas. “Se falarmos da média nacional, não é um número ruim, mas eu acho que Joinville merecia um número muito melhor”, argumenta.

Segundo Clarissa, diversos projetos estão em andamento para ampliar o atendimento na cidade. Ela destaca que a nova ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) Jarivatuba que está em construção será responsável por 90% do tratamento de esgoto e a previsão para que ela esteja em pleno funcionamento é 2018. Com isso, ela destaca, a estatística em Joinville saltará para 45%, ou seja, quase metade da cidade terá coleta e tratamento de esgoto. “O que pesa nesses números é essa ETE”, reforça.  Entre os projetos que estão sendo estudados ou em fase inicial estão a construção de uma estação de tratamento no bairro Vila Nova e outra no Jardim Paraíso. De acordo com a gerente, esses dois projetos representariam mais 10% de atendimento e estão previstos para 2020.

Nova estação de tratamento deve ampliar em cerca de 10% o atendimento em tratamento de esgoto na cidade – Divulgação/Paralelo

Atuando há 12 anos na cidade, desde que a concessão passou das mãos do estado para as mãos do município, a Águas de Joinville afirma ter aumentado a cobertura de esgoto em pelo menos 17%. A gerente de projetos e engenharia afirma que, em 2005, quando a companhia passou a ser responsável pelo serviço no lugar da Casan, apenas 14% do município contava com o tratamento de esgoto. Ainda de acordo com Clarissa, à época, a prioridade era a região central devido a bacia do rio Cachoeira e, para ela, esse é o principal motivo para que as regiões periféricas sejam as mais afetadas pela falta do serviço. Além de boa parte da zona Sul, a região Leste também é pouco atendida e Clarissa afirma que somente os bairros Aventureiro, Iririú, Jardim Iririú e Comasa juntos, representam 17% da rede. “Não temos mais tempo e espaço para que a cidade fique parada, ociosa. A nossa intenção é de não parar, a intenção é de que as obras não parem, a intenção é chegar aos 100%”, afirma Clarissa. Para chegar à cobertura completa o caminho é muito longo e Clarissa garante que os recursos já estão garantidos para chegar em 52% até 2020. Nos planos da companhia estão os 70% de cobertura em 2023, mas são apenas planos ainda sem recursos garantidos para implementação dos projetos necessários. “É uma questão de saúde pública e a nossa missão é a saúde pública”, destaca.

Ainda de acordo com Clarissa, até julho deste ano uma nova ferramenta irá auxiliar a companhia a traçar e executar novos projetos para aumentar o fornecimento do serviço de coleta e tratamento de esgoto. O PDE (Plano Diretor de Esgoto) seguirá os mesmos moldes do PDA (Plano Diretor de Águas) e deve servir para organizar a logística. “É um estudo que deverá nortear os próximos passos para que a gente consiga projetar a longo prazo, deixar algo a longo prazo”, explica.

Os baixos índices de tratamento de esgoto aumentam a possibilidade de proliferação de doenças como afirma o médico Eduardo Bianck Menezes. Ele explica que quanto menor a cobertura, aumenta a vulnerabilidade da população, assim como a necessidade de serviços de saúde. Segundo o Datasus, Joinville é a cidade catarinense que mais gastou em serviços de saúde em 2016. Para Eduardo, as projeções devem melhorar também os índices de saúde do município. “Podem refletir com melhorias nos indicadores de saúde, diminuindo a incidência de doenças infectocontagiosas”, avalia.

Moradores reclamam de forte odor próximo à estação de tratamento de esgoto

“A gente não paga taxa para ter mau cheiro em casa. Já se investe em esgoto por causa da saúde, que saúde teremos com esse mau cheiro entrando em casa?”. A pergunta da autônoma Márcia Assink é a mesma de diversos moradores do bairro Espinheiros que protestaram no primeiro dia de maio contra o odor que estão sentindo há cerca de um mês.

Moradores reclamam do forte mau cheiro na região da estação de tratamento no bairro Espinheiros – Adrieli Evarini/Paralelo

Moradora do bairro Espinheiros há cerca de 10 anos, ela viu a estação de tratamento ser erguida próximo a sua casa, mais precisamente a duas quadras do terreno. Márcia conta que quando começou a operar, a ETE Espinheiros exalava um odor que incomodava os moradores, mas que após diversas reuniões e alguns protestos, o problema foi solucionado. Porém, há cerca de um mês o mau cheiro incomoda novamente os moradores da região. “É insuportável. É até uma vergonha você receber uma visita, tem que trancar a casa e mesmo assim o mau cheiro entra. Volta até pelo ralo. Ou você sai ou tranca a casa, não tem o que fazer”, explica. Segundo ela, a própria companhia deu um prazo para que o problema seja regularizado e o prazo expira em menos de dois meses. Em julho, o mau cheiro deve desaparecer.

O auxiliar de produção Adejair Fernandes espera todos os dias a condução para o trabalho em frente à sua casa, no bairro Espinheiros, na zona Leste. As paredes laterais servem como divisão entre os geminados, já a parede de trás faz divisa com uma construção mais incômoda. Vizinho da estação de tratamento de esgoto, ele reclama do forte odor que toma conta da região, especialmente em dias de sol ou com vento. “Tem dia que não dá para suportar, tem que trancar a casa porque o cheiro é de esgoto puro, de fossa”, lamenta.

Diferente da vizinha Márcia, Adejair não teve qualquer notícia a respeito de prazos para minimizar o odor que atrapalha até mesmo as refeições da família. “A única coisa que eu sei é que falaram que tem alguma peça ou algo parecido quebrado”, diz.

De acordo com Clarissa Campos de Sá, gerente de engenharia de projetos da Companhia Águas de Joinville, a previsão para início de obras que minimizem o forte odor sentido pelos moradores do bairro é  julho. As obras dependem do processo licitatório que foi lançado.

Segundo o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento), nos últimos cinco anos houve um investimento de R$ 228,57 milhões em obras e projetos relacionados a saneamento em Joinville. Em contrapartida, a arrecadação foi de R$ 811,22 milhões.

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