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Ocupação do MST em Garuva reúne famílias em busca de oportunidade

Desde o dia 10 de abril, famílias ocupam uma propriedade localizada às margens da SC-417

A bainha pendurada na cintura de alguns dos homens da ocupação mostra porque o facão está presente até na bandeira do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra). Do portão onde está fixado o símbolo vermelho que representa o movimento ninguém passa sem se identificar e nenhum carro entra sem ser revistado. A intenção é não deixar que pessoas infiltradas, drogas e bebidas alcoólicas entrem no local ocupado por famílias desde o dia 10 de abril.

Mesmo que a bandeira não marcasse a presença do movimento, a quantidade de barracos cobertos por lona sinaliza a ocupação em Garuva, às margens da SC-417, rodovia que dá acesso à Guaratuba. É de lá que vem a maioria das famílias da ocupação, que também recebe pessoas de Joinville, Jaraguá do Sul e do próprio município de Garuva. Segundo os coordenadores do movimento, ainda não há uma contagem exata de quantas famílias já chegaram ao local, mas cerca de 200, das 600 previstas pelo MST, já ergueram suas casas improvisadas na ocupação, que recebe pessoas todos os dias em busca de uma vida nova. “A maioria das pessoas está desempregada, tem até pessoas que eram funcionárias do dono desse terreno. Às vezes eles vêm sem roupa, sem nada. Aí eles pousam uma noite aqui (em uma área construída) até construírem o barraco”, conta João Carlos Fernandes, o Gaúcho, coordenador interno da ocupação. Antes de permitir a entrada de novas pessoas, os coordenadores se informam sobre quem está chegando e de onde surgiu a indicação. “A gente recebe todo tipo de família e vai ficando quem realmente quer lutar pela terra”, completa Gaúcho. Por causa do trabalho em outros municípios, alguns dos ocupantes acabam ficando apenas alguns dias da semana no terreno.

Bandeira do MST indica a ocupação às margens da SC-417, em Garuva – Juliane Guerreiro/Paralelo

Na ocupação, os barracos são divididos em núcleos. Em cada núcleo, são escolhidas pessoas que trabalham em coordenações, como saúde, segurança, alimentação, higiene e limpeza. Dener Medeiros dos Santos, 22 anos, é um dos responsáveis pela segurança do local. “Nós trabalhamos com escala de serviço para a segurança de todo mundo”, explica. Ao receber a reportagem, ele pede que ninguém repare na bagunça do barraco em que mora com o tio. “Como não tenho nada e estou desempregado vim pra cá. A gente espera ganhar e investir para conseguir viver aqui”, fala. Na saída, Zenilda Bonetti, coordenadora interna da ocupação, elogia o barraco de Dener. “Está bonito o barraco, ele tá de parabéns”.

Zenilda e Gaúcho estão em Garuva de passagem. Os dois moram em outros assentamentos do estado, Zenilda em Campos Novos e Gaúcho em Canoinhas. Pela sua experiência, chegaram à Garuva para ajudar a organizar e coordenar a nova ocupação. “É muito bom viver em assentamento. Lá eu planto feijão, soja, arroz, de tudo”, conta Gaúcho. Além de fazer parte da cooperativa instalada em Canoinhas, ele também vende aipim para o mercado da região.

Diferente de Gaúcho, a paranaense Eliane Ribeiro de Góes, 41, ainda está aprendendo a mexer na terra. Na ocupação, ela mora com o marido e é vizinha do irmão e da cunhada. Antes de chegar ao local, ela morava no bairro Paranaguamirim, em Joinville, e pagava um aluguel de R$ 350. Como está desempregada e o marido ganha cerca de R$ 15 por dia, a ocupação pareceu uma boa opção ao casal. “Eu estou confiante, aqui está bom. Estou aprendendo muitas coisas e já plantei alface e couve”, conta.

Lorival e a horta produzida por ele – Juliane Guerreiro/Paralelo

A estação que toca sertanejo no barraco de Eliane é a mesma que toca Simone & Simaria no barraco de Lorival Agostinho de Souza, 56, que mora com a irmã na ocupação. Na frente da casa feita de lona, ele admira a horta que plantou há pouco tempo. “Tem que conversar com elas, senão não cresce”, explica. Lorival trabalhava com sucata em Joinville e ficou sabendo da ocupação pelas pessoas da igreja da qual faz parte. “Eu estou contente aqui. Ninguém incomoda ninguém e eu sempre gostei de mexer com a terra”, fala. O que tem incomodado Lorival são as formigas cortadeiras que tentam levar embora o alface recém plantado por ele.

Gaúcho conta que a propriedade pode ser utilizada para diversas atividades, como a criação de abelhas e cultivo de banana e outros produtos orgânicos.

Advogado nega abandono do terreno

Segundo o MST, a propriedade, que se divide em duas partes, está sem uso há muito tempo. A parte em que estão os barracos era utilizada para a criação de gado de leite e, além de uma casa com energia elétrica, tem um abrigo para os animais. Do outro lado da rodovia, uma parte ainda não ocupada pelo movimento era utilizada para a plantação de arroz. Com a cuia de chimarrão na mão, Gaúcho conta que o proprietário não visitou o local desde a ocupação, mas que mandou um funcionário. “O dono nunca veio, mas o capataz veio aqui e ameaçou. Disse que a polícia ia atirar e a gente ia sair a força”, fala.

De fato, a polícia atirou. Dez dias após o início do movimento, policiais militares estiveram no local para conter uma nova ocupação, desta vez no terreno da frente, segundo a PM. De acordo com o Sargento Ivonei Polsin, em relato ao jornal A Notícia na época do fato, os integrantes do movimento teriam mantido uma família em cárcere privado para ocupar a propriedade. O movimento nega que isso tenha acontecido. “Foi invenção do caseiro, não teve nada disso. Um caminhão de mudança que ia entrar aqui parou do outro lado e eles acharam que a gente ia ocupar. É a palavra deles contra 200 famílias que estão aqui”, reage Gaúcho. Durante a operação, um dos moradores da ocupação foi ferido por disparos de balas de borracha. O Paralelo tentou contato com o sargento Polsin, mas não foi possível falar com ele até o fechamento da reportagem.

Homem foi atingido por balas de borracha durante a ação policial – Divulgação/Paralelo

Álvaro Carlos Meyer, advogado de um dos locatários do terreno, diz que as áreas estão arrendadas e alugadas para a criação de gado, plantação de arroz e mineração de areia e saibro e defende que a propriedade não serve para a reforma agrária porque fica situada em área considerada industrial e retro portuária, conforme o plano diretor do município. “Não faz sentido o MST entrar em cima de uma área urbana para fins de reforma agrária, para mim isso é um ato de vandalismo. O que tem lá não é o MST, é um bando de bandidos aproveitadores porque não existe abandono. A propriedade tem a sua função social em três atividades. Se tem um contrato de locação é porque não existe abandono”, afirma. O advogado entrou com ação de reintegração de posse e a justiça marcou audiência conciliatória com um juiz agrário para o dia 9 de maio. “Isso tira da mão do juiz comum a discussão sobre a reforma agrária, o que faz com que tenha um tratamento especial para discutir a função social da terra”, ressalta Cynthia Pinto da Luz, advogada do Centro dos Direitos Humanos Maria da Graça Bráz, de Joinville, entidade que apoia a ocupação.

Luta pela terra

A fumaça que sai dos fogões a lenha envolve toda a ocupação enquanto Zenilda explica os benefícios da reforma agrária. “Onde as famílias são assentadas elas dão renda para o município, coisa que o fazendeiro não faz. Todas vão comprar roupa, comida e vão vender seus produtos aqui. São 600 famílias ao invés de um fazendeiro. A reforma agrária não é boa só para o MST, mas para a população em geral”, destaca. Lutar pela terra, para ela, é uma das saídas em busca de dignidade. “De que vale eu não lutar e ficar só olhando? Quando a pessoa chega aqui embaixo de uma lona ela não tem mais o que fazer. Existem pessoas que não tinham nada e hoje tem uma casa, isso é dignidade”, completa.

“A gente espera ganhar e investir para conseguir viver aqui”, fala Dener – Juliane Guerreiro/Paralelo

Manoel Antônio Roque, assentado em Rio Negrinho e integrante da direção estadual do MST, reforça que 70% do alimento consumido no Brasil é produzido pela agricultura familiar. Deste modo, dar terra a quem quer plantar seria uma forma de dar dignidade ao trabalhador e melhorar a economia do país. “São muitas pessoas que você tira da miséria, que produzem seu próprio alimento e alimento para os outros. É isso que a gente busca para o povo, é essa dignidade, é deixar o povo tranquilo. É preciso que o governo enxergue que a reforma agrária é uma das saídas para salvar a economia do país”, afirma. Ele explica que o papel do MST é organizar as famílias e ocupar propriedades de grandes devedores da União e de bancos para que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) se interesse pela reforma agrária naquela área.

Para Manoel, que luta pela reforma agrária desde a década de 80, o Brasil vive o retorno da violência contra os trabalhadores. “Naquela época, o sem terra era tratado como bandido, mas de 2000 pra cá o diálogo foi mais forte que a repressão. Porém, com a troca de governo a repressão voltou e vários companheiros foram assassinados em Minas Gerais e Mato Grosso. Não estão tratando a terra como um direito social e isso é ruim”, ressalta.

Em Santa Catarina, segundo o Incra, há 5.267 famílias em 161 assentamentos distribuídos pelo estado. No Litoral Norte, há assentamentos em Garuva e Araquari.

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