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Famílias ocupam terrenos no Aventureiro, zona Leste de Joinville

Cerca de 70 famílias, a maioria que morava em uma área de mangue na mesma região, ocupam os terrenos desde o dia 21 de abril

Atualização em 29/4 – 10h45 sobre a decisão judicial publicada pela 1ª Vara Cível de Joinville.

As paredes construídas com paletes e a lona que substitui as telhas não foram suficientes para barrar o vento e a chuva que atingiram Joinville na última quarta-feira (26). Antoninho acordou assustado com o temporal e até tentou proteger a casa improvisada que ergueu há poucos dias, mas não conseguiu. O colchão ficou encharcado, porém não houve muito tempo para lamentar. No dia seguinte, o pedreiro, que agora é reciclador, voltou a trabalhar na construção da nova casa em que pretende morar com os filhos.

Antoninho se mudou com os dois filhos do local onde vivia, perto do mangue, para a casa improvisada na ocupação – Adrieli Evarini/Paralelo

Assim como Antoninho Menezes Hermínio e suas duas crianças, aproximadamente 70 famílias estão limpando, demarcando e construindo moradias em um terreno localizado no bairro Aventureiro, zona Leste de Joinville. A ocupação começou na sexta-feira passada (21) e, por enquanto, apenas alguns moradores estão morando definitivamente no local, como é o caso de Antoninho. “Com a união de todo mundo viemos pra cá. Para ter um endereço fixo, para ter um lugar nosso, porque ali a gente está esquecido”, fala. Antes de chegar ao novo terreno, ele morava em uma área de ocupação localizada na mesma região, à beira de um mangue. O local não agradava à família, mas foi a única opção encontrada pelo pai para fugir do aluguel. “Eu já paguei aluguel por Joinville toda, era R$ 600 por mês, e aí não aguentamos mais”, conta. Antoninho trabalhava como pedreiro, mas, segundo ele, a falta de serviço fez com que se tornasse catador de reciclagem. Com o trabalho, ganha cerca de R$ 500 por semana, dinheiro que é dividido com outras duas pessoas que trabalham com ele.

Como Antoninho, Ângela dos Santos Brisdo tem passado os dias com os filhos e netos no barraco construído pela família. Ela conta que tem casa, mas está no local para garantir o lugar para os filhos. “Não quero que fiquem na beira do mangue. Eu sou contra invadir uma casa que tem dono, mas isso aqui está abandonado. Vão deixar os outros sofrendo e passando necessidade?”, questiona.

Adriana de Paula e a família também já estão morando na ocupação. “Para nós é melhor aqui, mesmo que seja de lona”, diz. Como Antoninho, sua antiga casa ficava na ocupação perto do mangue e Adriana não aguenta mais as condições de vida no lugar. “Tem lodo, lama, maruim e quando a maré sobe enche tudo. Lá não tem condição nenhuma, não tem espaço pra criança brincar. Se elas quiserem brincar tem que ir para o asfalto. Entre aqui e lá, aqui é melhor”, explica. Adriana e o marido estão desempregados e sobrevivem com o dinheiro do programa Bolsa Família. Segundo ela, a família está cadastrada na lista de espera por moradia popular em Joinville, mas nunca foi sorteada. “Esperar por isso é difícil, tem gente esperando há dez anos. Então a gente tem que correr atrás, tem que lutar. A gente não está dizendo que não vai pagar”, fala.

Hoje, cerca de 16 mil pessoas estão no cadastro habitacional esperando por moradia popular em Joinville. Destas, cerca de 15 mil têm renda mensal familiar de até três salários mínimos. Segundo a Secretaria da Habitação, não há, a curto e médio prazo, previsão de novos sorteios de moradias populares no município.

Ocupação organizada

Na semana após a ocupação, os moradores se organizavam para demarcar os terrenos e começar a fazer a limpeza, ao mesmo tempo em que alguns começam a erguer barracos provisórios de madeira e lona. “Esses barraquinhos são provisórios, para demarcar. Mas serão construídas casas de acordo com as condições de cada um”, explica Rafael Marques, que não vai morar no local, mas foi chamado pelos moradores para a organização da ocupação. “A gente está tentando ajudar, mas nem todos têm condição. Por isso a gente aceita doação de madeira e material de construção”, completa. Segundo ele, cada família terá 200 m² para morar.

“Não quero que fiquem na beira do mangue”, diz Ângela sobre os filhos – Adrieli Evarini/Paralelo

Sem energia, banheiro e água, os moradores dependem de pessoas que vivem próximas ao local, mas nem todos os vizinhos receberam bem o movimento. “Eles estão preocupados que a gente transforme isso numa favela. Nós não vamos transformar isso em favela, em lixão. Também estão com medo de bandidagem, mas a gente não permite atitudes ilícitas”, diz Reginaldo Cardoso, outro organizador da ocupação. Segundo ele, os terrenos estão sendo medidos e haverá espaço para calçada e fossa, como em um loteamento. Para Antoninho, as pessoas que criticam a ocupação não entendem como é a vida dos moradores. “São pessoas que não passaram pelo o que a gente passou, que nasceram em berço de ouro. A gente não teve essa oportunidade”, fala.

Segundo os organizadores, vizinhos do terreno dizem que ele estava abandonado há pelo menos 20 anos. “Tem pessoas que dizem que são donas, mas registro não existe”, diz Rafael. Para ele, a ocupação é uma maneira de melhorar as condições de vida dos moradores. “A gente sabe que tem gente que vai trabalhar a vida inteira e não vai ter. Embora saibam que não é algo definitivo ainda, aqui é um lugar melhor”, completa. Além das famílias que moravam na área de mangue, também fazem parte da ocupação pessoas que moravam de aluguel na mesma região.

Caso está na justiça

Nesta semana, a Imobiliária Zattar e Dorival Casagrande Ramos entraram com ação judicial pedindo a reintegração de posse. Uma audiência conciliatória estava marcada para o dia 25 de julho, mas na última sexta-feira (28), a 1ª Vara Cível de Joinville decidiu por deferir a liminar e conceder a reintegração imediata da posse aos proprietários. Os moradores da ocupação tem dez dias para deixá-la após a notificação pelo Oficial de Justiça. Confira a decisão na íntegra aqui. A reportagem do Paralelo tentou contato com a Imobiliária Zattar, mas não houve resposta para a solicitação.

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