Reportagens

Família acusa maternidade por negligência em morte de bebê

Cesárea recomendada por médico que acompanhou a gravidez não foi realizada

O berço que acolheria Enzo Gabriel só foi desmontado porque os pais se mudaram há pouco mais de uma semana. Junto com as partes que formam o móvel, agora inutilizado, o bebê conforto também faz parte da mobília do quarto do casal na casa que ainda guarda as roupinhas do segundo filho de Aline Vieira de Andrade e Lyonel Ribas.

Foi uma gravidez tranquila e, embora não planejada, muito esperada pela família. Ainda mais por Isabelly, a irmã mais velha, de seis anos, que não mostrava ciúme na espera pelo irmãozinho. Aline trabalhou durante toda a gestação e embora o peso do bebê, que nasceu com mais de quatro quilos, refletisse em algumas dores para a mãe, a jovem de 24 anos não teve qualquer complicação durante a espera.

Segundo o médico que a acompanhou durante o pré-natal, a data prevista para a chegada de Enzo era o dia 27 de janeiro. No dia 19 do mesmo mês, em uma consulta no posto de saúde com este mesmo médico, Aline recebeu um encaminhamento para fazer uma cesárea já que, segundo o especialista, o bebê era muito grande para a pelve da mãe. Com o documento em mãos, Aline e o marido partiram para a Maternidade Darcy Vargas ansiosos para conhecer o rosto do novo membro da família. “Fomos bem felizes, com bolsa e tudo achando que ganharíamos naquele dia”, relembra a mãe.

“Foi uma gestação tranquila, perfeita”, conta Aline – Arquivo pessoal/Paralelo

Ela conta que, chegando à maternidade, foram informados de que a cesárea não seria feita e que deveriam voltar ao local apenas se a bolsa estourasse, houvesse sangramento ou se o bebê deixasse de se movimentar por 12 horas. Assim, o casal voltou para casa e só retornou à instituição no dia 27 de janeiro, quando Aline acordou com dores e contrações de três em três minutos. Na maternidade, constataram que a mãe tinha apenas um dedo de dilatação e pediram para que ela voltasse para casa. Com medo, o casal insistiu em ficar e, conforme Aline, para tranquilizá-los, a equipe médica providenciou uma ultrassonografia para verificar a saúde do bebê que, segundo o exame, tinha 3,2 kg. Depois, a equipe médica pediu para que Aline caminhasse para facilitar a dilatação e aguardasse por duas horas.

Ela conta que durante esse tempo perdia líquido e que a situação incomodava até quem aguardava por consulta no mesmo local. “Os pais olhavam para mim indignados. Foi quando o guardinha que estava lá entrou no consultório e pediu pra eu ser consultada”, fala. Depois da consulta, com quatro dedos de dilatação, a mãe foi encaminhada para a sala de pré-parto, onde fez diversas dinâmicas para estimular o parto normal, como banhos e agachamentos, durante cerca de cinco horas. “Tudo ficava sujo com o líquido que eu perdia”, fala. As contrações, segundo ela, diminuíram após este período.

Na noite do mesmo dia 27, Aline saiu da sala da pré-parto e foi encaminhada a outro quarto. Neste momento, as enfermeiras notaram que seu prontuário havido sido trocado com o de outra paciente chamada Aline. Os batimentos de Enzo foram ouvidos às 23h e às 5h, embora, segundo Aline, o prontuário especificasse que os batimentos deveriam ser ouvidos com uma frequência maior. Às 8h do dia 28, em outra consulta aos batimentos, o coração do bebê não era mais ouvido. “Me levaram sozinha e correndo para o pré-parto”, conta. Lá, após uma ultrassonografia, a equipe médica constatou que era necessária uma cesárea de urgência. “Não teve preparação nenhuma. Eles me colocaram sentada, deram a anestesia, puxaram o pano e cortaram. Eu gritava de dor e eles diziam que era necessário”, relembra a mãe. O marido chegou à sala minutos depois e filmou a equipe médica tentando reanimar o bebê.

“Quando acordei comecei a escutar socos na parede e gritos com a voz do meu marido. Pensei ‘não acredito que ele morreu’”, conta. Enzo Gabriel chegou ao mundo no dia 28 de janeiro, com 4,080 quilos, mas sem vida.

Se recuperando da cirurgia, Aline recebeu a visita do médico. “Ele disse para guardar um ano de luto e que na próxima seria tudo diferente”. No dia 30, a mãe recebeu alta e ao invés de levar o filho para casa, como esperou durante toda a gestação, teve de sepultá-lo. Além da dor da perda do filho, a família teve que parcelar os serviços funerários e pedir ajuda à chefe de Aline para fazer o pagamento, ao contrário do que informou a assistência social que, em visita à mãe, disse que o serviço seria gratuito. “Foi muito triste. A pior cena da minha vida”, desabafa Aline.

Segundo o laudo médico patológico emitido pelo SVO (Serviço de Verificação de Óbito), a causa da morte de Enzo foi hipóxia (diminuição ou ausência do oxigênio recebido pelo bebê pela placenta). Na história clínica do paciente, que integra o documento do SVO e que é fornecida pela instituição hospitalar, consta que Aline “deu entrada na MDV com dilatação completa e ausência de batimentos fetais”.

História clínica indica que Aline teria chegado à maternidade com dilatação completa e sem batimentos fetais – Reprodução/Paralelo

Passados quase três meses, a família sente a perda de Enzo todos os dias. “Eu tive muitos pesadelos. Sonhava que estava na maca, que estava defendendo a minha barriga. A minha filha ainda chora”, diz a mãe. Aline quer que a equipe médica seja responsabilizada por negligência. “A dor que eu sinto, eu uso pra me dar força e fazer justiça”, fala. Em conjunto com outras famílias que também responsabilizam a maternidade pela morte de seus filhos, Aline organiza uma manifestação que será realizada neste sábado (22), às 13h30, em frente à instituição.

O que diz a maternidade

Além de Aline, que perdeu o bebê em 2017, em anos anteriores outras mães questionavam a preferência pelo parto normal, por indução ou não, à cesariana na Maternidade Darcy Vargas. Valdir Lampa, diretor técnico da instituição, explica que para a saúde da mãe e do bebê o parto normal é mais indicado, mas que a indução só é realizada em casos em que há indicação médica. “O parto normal sempre é melhor porque é fisiológico, é assim que se nasce em todo o reino animal. A cesariana é uma opção que deve ser respeitada para as indicações que são precisamente indicadas”, fala. Na instituição, de acordo com Valdir, cerca de 30% dos nascimentos são realizadas com a cesariana.

Segundo o diretor, há indicação de indução do parto normal quando a mãe tem alguma doença que pode interferir no bem-estar do bebê caso se espere por muito tempo, quando a bolsa rompe espontaneamente, porém a mãe ainda não está em trabalho de parto ou quando a gestação se aproxima das 42 semanas, prazo máximo. “É como se estivesse passando do prazo, a gestação pós-termo. A maternidade encurtou para 41 semanas, nós nunca esperamos até as 42 semanas”, fala.

Lampa afirma que, quando necessário e indicado, há várias maneiras de induzir o parto e que, na maternidade joinvilense, são usadas duas drogas para isso. O misoprostol, que faz a “maturidade” do colo uterino tornando possível a passagem do bebê e, se necessário, a ocitocina, que provoca contrações quando o colo dá condições de dilatação. “Existem contraindicações para induzir o parto normal quando o bebê é muito grande, acima de quatro quilos, quando se tentou induzir o parto e falhou e quando a paciente tem alguma cirurgia do útero, como uma cesariana ou a retirada de um mioma. As contraindicações são muito pequenas para um número muito alto de indicações”, explica o especialista. No caso de Aline, não houve a indução do parto com medicamentos, pois ela já havia feito uma cesárea no nascimento da primeira filha. Ao invés disso, ela passou por diversas dinâmicas a fim de aumentar a dilatação. “Para induzir, eles não poderiam me dar nada porque eu já tinha uma cesárea, eu só ia ganhar normal se dilatasse espontaneamente. Eles só fizeram dinâmica, ficaram forçando na dinâmica”, conta. Segundo ela, o máximo de dilatação alcançada foram “cinco dedos”. De acordo com o diretor técnico, cada “dedo”, no termo popular, indica um centímetro de dilatação e o ideal para o parto normal são dez centímetros.

Valdir Lampa conta que são realizados cerca de 500 partos por mês na maternidade. Neste ano, segundo ele, um único bebê teve óbito “inexplicável”. “Esse ano na maternidade nós tivemos um óbito que a paciente estava em indução do parto, respeitando as regras que eu falei. Não me lembro qual foi a causa, mas muito provavelmente foi uma trombose ou um infarto placentário, porque não tinha um motivo pra esse bebê morrer do ponto de vista obstétrico”, diz.
Embora não tenha falado sobre o caso de Aline especificamente, o diretor comenta alguns pontos questionados pela mãe sobre o atendimento na maternidade. Sobre a ultrassonografia realizada um dia antes do parto de Aline e que indicou o peso de Enzo abaixo do real, Valdir explica que a margem de erro no último trimestre de gravidez é grande. “A margem de erro do peso no ultrassom é muito grande, não dá pra valorizar tanto. Ele mede por imagem sonora, não tem como calcular o peso. Não dá pra investigar de forma adequada o peso do bebê”, fala.

Ainda sobre o caso de Aline, que teve encaminhamento para a realização da cesárea feito pelo médico que a acompanhou durante a gravidez no posto de saúde, o diretor da maternidade afirma que a indicação obedece ao critério do médico da instituição. “O médico não pode interferir. Não é o médico do posto. O médico que tem que avaliar a indicação da cesariana ou não é o médico que está de plantão. Não é o médico do posto que vai dizer se tem que ser cesárea, às vezes o médico que está lá nem é obstetra, às vezes nem é médico, é uma enfermeira obstétrica que está fazendo o pré-natal”, diz.

Para o diretor técnico, o caso foi uma fatalidade. “Elas estão extremamente chateadas, deprimidas com a perda que tiveram. Mas não foi intencional, não foi erro médico, isso eu garanto”, diz. “Num universo desse todo, com essa complexidade, a gente vai ter complicações. Mas, estatisticamente, a gente está muito aquém dessas complicações. É claro que aquele que sofreu na pele não consegue entender isso e não entende mesmo. Está prevista uma manifestação aqui para sábado de manhã, vão juntar mães que perderam o bebê lá em 2013, 2014, 2015, 2016, 2017. Foi intencional? Não”, completa.

Família aciona Justiça

Além da manifestação, Aline também pretende questionar o atendimento judicialmente. Segundo o advogado que representa a família, Daniel Morita, o caso foi levado ao Ministério Público de Santa Catarina para que o órgão abra uma investigação criminal contra a equipe médica responsável. “Ela chegou à maternidade com recomendação do médico que a acompanhou a gestação toda dizendo que ela precisava de cesárea. Com certeza há um crime e queremos que o MP busque a responsabilização dos médicos envolvidos”, diz o advogado.

De acordo com Daniel, o caso também foi levado à ouvidoria do Estado para que os médicos sejam investigados e demitidos. Além disso, a família entrou com ação contra o Estado para pedir indenização por danos morais pela perda do bebê, danos estéticos em razão da cicatriz deixada pelo “corte às pressas” e por danos materiais pelas despesas com o funeral. Ao todo, a indenização solicitada chega a R$ 521 mil. “Pedimos que o Estado pague indenização em relação à perda do Enzo, a negligência que eles sofreram e todo o sofrimento que passaram”, afirma o advogado. Eles também irão protocolar uma denúncia no CRM (Conselho Regional de Medicina) pedindo que os envolvidos sejam impedidos de clinicar. Além de Aline, Daniel ainda orienta outras quatro mães que acusam a maternidade por negligência médica.

Para a mãe de Enzo, o filho, que nem pode ter seu nome registrado, será sempre parte da família. “Eu gosto de falar dele. Não quero que fique esquecido”.

Comentários

comentário

Categorias
Reportagens