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Um suicídio é registrado a cada 45 minutos no Brasil: é preciso falar sobre o assunto

Ainda considerado um tabu, suicídio poderia ser prevenido em 90% dos casos, segundo a OMS

Desde que a série “13 Reasons Why” foi lançada pela Netflix, no mês passado, as redes sociais têm sido palco de debate sobre a necessidade e a maneira correta de abordar o suicídio. No Brasil, um caso é registrado a cada 45 minutos. No mundo, uma pessoa morre pela mesma causa a cada 40 segundos. Para além do que aborda a produção americana, falar sobre o suicídio é fundamental para a prevenção, já que, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), 90% dos casos são preveníveis desde que existam condições mínimas para a oferta de ajuda.

Em Joinville, o grupo “Girassol”, formado pelas psicólogas Fabiana Cruz, Fabiane Santos, Lindalva Brunken, Raísa Giumelli e Tatiane Florentino, percebeu a necessidade de falar mais sobre o assunto quando notaram que muitos pacientes chegavam ao consultório com ideações suicidas. “Nos sentimos instigadas a fazer algo que ultrapassasse as paredes do consultório e fomentasse na população uma reflexão acerca dessa temática pouco falada. Começamos a pensar em formas de falar sobre o assunto de uma maneira que aproximasse as pessoas e que fosse uma linguagem mais acessível”, explicam. Além de uma exposição realizada em setembro do ano passado, mês que simboliza a luta pela prevenção do suicídio, o grupo também promove palestras e rodas de conversa em escolas e outras instituições.

Grupo “Girassol” promoveu exposição sobre o suicídio durante o “Setembro Amarelo”, mês de conscientização sobre o tema – Renato Ganske Junior/Divulgação

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, em 2016, com dados atualizados até o mês de julho, 53 suicídios foram registrados em Joinville, a cidade com o maior número de casos no estado. “Falar sobre este tema é uma questão de saúde pública. O que pode preocupar é uma visão mais romantizada do tema, trazendo essa questão como algo ‘mágico’ e tentador. Porém, discutir o tema em si pode ser uma possibilidade de as pessoas pedirem ajuda”, ressaltam as psicólogas.

Mitos e verdades sobre o suicídio

As psicólogas ressaltam que buscar uma causa para o suicídio é negligenciar a particularidade de cada um, pois existem diversos fatores e todos precisam ser levados em consideração. Há causas psiquiátricas, como a depressão, dependência química, esquizofrenia, disfunções de personalidade e psicoses; psicológicas, como um histórico de perdas (como o luto ou perdas simbólicas, como perder o emprego), instabilidade familiar, isolamento social, falência financeira, abstinência de drogas; e sociais, como a idade, religião, estado civil, condições econômicas e cultura do local. As profissionais explicam que os grupos mais vulneráveis ao suicídio são adolescentes, idosos, indígenas, homossexuais e pessoas depressivas.

Segundo as psicólogas do grupo “Girassol”, há diversos sinais de alerta que uma pessoa pode mostrar antes de cometer o suicídio, como falar que a vida não faz mais sentido e que só a morte pode resolver. Sentimentos como raiva, ansiedade, pessimismo e falta de esperança, assim como alterações repentinas de humor, de sono e de apetite também podem ser sinais de alerta. Além disso, desfazer-se de objetos importantes, fazer seguro de vida e fechar uma conta corrente, por exemplo, também podem significar riscos de ideação suicida. “Sempre vão existir sinais, porém alguns deles são mais evidentes que outros, que podem ser muito sutis”, afirmam.

As psicólogas alertam para a importância de não lidar com a situação sozinho. É importante que, além de contar com o apoio da família, a pessoa seja atendida por psiquiatra e psicólogo. “Falar sobre o assunto é fundamental, de forma aberta e sem julgamentos ou preconceito. Acolhendo e respeitando a dor, a ideação suicida e já oferecendo suporte e auxílio através do tratamento medicamentoso e psicoterápico. Vamos trabalhar no sentido de compreender o que esta pessoa quer matar na sua vida, o que é bem diferente de querer morrer. Ser acolhida e compreendida pode facilitar que a pessoa invista sua energia em fortalecer vínculos também para fora do consultório e desenvolver maior auto suporte para lidar com as causas do sofrimento emocional”, reforçam.

O grupo ressalta ainda a importância de ficar atento a melhoras muito rápidas. “Às vezes a pessoa já tem planejado e está bem porque vai executar a ação. Além disso, entre 30 e 60 dias após o uso de antidepressivos aumenta o risco de suicídio, pois é quando a pessoa fica com mais energia para cometer algo contra si”, explicam as psicólogas.

Como vai você?

O CVV (Centro de Valorização da Vida), entidade que existe há mais de 55 anos no Brasil, pode ser um aliado para quem precisa conversar. O posto de Joinville, reaberto em 2014, atende em média 45 ligações por mês, além de contar com atendimento presencial. Ao ligar para o CVV, a pessoa não recebe conselhos, mas pode falar abertamente sobre seus sentimentos e problemas em uma conversa sigilosa. “A nossa única preocupação é entrar no sentimento das pessoas, a gente não dá conselho, não julga. A ideia é acolher a pessoa independente do que ela nos traz”, fala Paloma Aizic, uma das 22 voluntárias da entidade em Joinville.

Solange Coral, coordenadora do CVV na cidade, explica que a entidade está trabalhando para alcançar o atendimento por 24 horas, além de implementar outras tecnologias, como o número 188, que recebe ligações de todo o país. “Nós não trabalhamos 24 horas porque ainda precisamos de mais voluntários e não temos algumas tecnologias, o que acaba nos limitando. Mas a gente está disponível para o outro. Cabe à sociedade nos procurar”, ressalta. Para ela, o trabalho no CVV é gratificante. “São pessoas que não nos conhecem e nos falam coisas tão íntimas. O sentimento é de gratidão”, fala. Para Paloma, o sentimento é o mesmo. “Somos muito mais ajudados do que ajudamos. Eu sempre penso ‘que bom que eu estava ali para ajudar uma pessoa’”, completa.

O CVV em Joinville atende presencialmente na Rua Jaguaruna, 13, das 7h30 às 11h30. Por telefone, a entidade atende pelo número 3422-0800 em dois turnos: de segunda a segunda, das 7h30 às 11h30 e de segunda a sexta, das 19 às 23h. Também é possível ligar para o CVV nacional, no número 141, com custo de uma ligação local.

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