Reportagens

Justiça acata pedido do Ministério Público e arquiva caso de adolescente morto pela Polícia Militar em Joinville

“Me sinto derrotado, humilhado”, diz pai de Joelson Andrade, após saber da decisão

Joelson Andrade tinha 15 anos quando foi morto pela Polícia Militar após uma perseguição em janeiro de 2016 – Reprodução

“Na hora, ele não pensou se era um adolescente, se tinha um pai, uma mãe, se tinha família. Ele só pensou em atirar. Ele só pensou em matar”. A revolta de Joel Andrade, que perdeu o filho em janeiro de 2016, aumentou ainda mais na última terça-feira (4). A família, que já questionava o pedido de arquivamento do caso de Joelson Andrade, morto aos 15 anos com dois tiros na cabeça disparados pela Polícia Militar de Santa Catarina, agora recebe a notícia de que a Justiça acatou o pedido do Ministério Público. “(…)acolho como procedentes os argumentos retro invocados pelo ilustre Representante do Ministério Público, em razão do que determino o arquivamento do presente inquérito policial, com a ressalva de que trata o artigo 18 do Código de Processo Penal”, descreve o documento datado de 31 de outubro de 2016. Apesar de a data de confecção do documento ser ainda do ano passado, a decisão só foi assinada e postada pelo cartório no dia 4 de abril deste ano, data em que o caso foi arquivado oficialmente. Ainda de acordo com a decisão, as autoridades policiais podem retornar às investigações em caso de novas provas.

A perda do único filho motivou a mudança de cidade. Após meses visitando todos os dias o cemitério onde o filho foi enterrado, Joel mudou para Ituporanga, no vale do Itajaí, mas as lembranças do filho o acompanham. “O que eu mais sinto falta é do dia a dia com ele. Foi de surpresa, você nunca sonha com uma coisa dessa, nunca espera que vai acontecer isso. Foi um choque, um tombo. Você não aceita. Vive um dia atrás do outro. Você dorme, levanta, vê anoitecer e se pergunta o tempo todo: por que ele não está aqui agora?”, conta.

A determinação do arquivamento pegou o pai do adolescente de surpresa. Ele soube, pelo telefone, que a investigação da morte do filho foi arquivada. “Eu me sinto derrotado, humilhado. É difícil né? Se a gente tivesse mais poder, mais dinheiro, seria bem diferente, como a gente não tem condições acontece esse tipo de coisa. É uma injustiça. Ainda mais que envolve polícia, aí que eles enrolam, dão um jeito do tempo passar e agora? Agora simplesmente arquivam o caso e eles continuam trabalhando tranquilamente. Daqui a pouco podem matar mais um, com certeza daqui a pouco eles atiram em outro filho de alguém”, lamenta.

Família de adolescente morto pela PM questiona arquivamento do caso

Joelson foi morto após uma perseguição policial no dia 26 de janeiro de 2016, no bairro Comasa, mesmo bairro em que morava e fazia “bicos” de chapeiro em lanchonetes. A versão policial é de que ele estava armado e tentou, por diversas vezes, disparar contra os policiais. Já a versão das testemunhas – o adolescente estava acompanhado de outros quatro rapazes – não corrobora a policial. De acordo com as testemunhas, Joelson estava desarmado e, assim que colidiu contra uma auto elétrica, correu porque era menor de idade e estava com medo. “Ele correu porque sabia que iria apanhar. Ele disse durante a perseguição ‘a gente vai morrer’. Ele estava com medo, por isso correu”, contou uma das testemunhas ao Paralelo.

O laudo pericial anexado ao inquérito policial que foi arquivado na última terça aponta que o adolescente foi morto com dois tiros na cabeça, enquanto estava de costas. Um dos disparos atingiu a região póstero-lateral esquerda, fraturando o crânio e perfurando o cérebro, ficando alojado na face, pouco abaixo do olho esquerdo. O outro disparo atingiu a região da nuca e dois estilhaços ficaram alojados dentro da boca. Assinado em 4 de março de 2016 pelo perito criminal Tiago Petry, o laudo afirma ainda que ambos os disparos tiveram uma trajetória posterior para anterior, o que significa que os projéteis que tiraram a vida do adolescente entraram por trás da cabeça. “Por fim, as lesões constatadas na cabeça e na nuca do cadáver indicam que o indivíduo alvejado se encontrava de costas em relação ao(s) atirador(es)”, aponta o documento.

Um revólver calibre 38 foi apresentado pelos policiais como sendo a suposta arma que estava em posse de Joelson, porém, o laudo pericial apontou que no local foram encontrados somente quatro estojos componentes de munição e todos referentes a pistola .40, a arma utilizada pelos policiais.

Para Joel, a intenção de matar ficou clara quando os dois disparos atingiram a cabeça de seu filho. “Eu te digo uma coisa, eles estão aí, na rua, para proteger e não para puxar o revólver e sair atirando. Se ele fosse tão bom, por que não atirou na perna, no braço? Dentro da polícia também existe muito bandido e isso quem fez foi um deles. Com certeza ele atirou para matar, ou não teria atirado duas vezes na cabeça do meu filho”, ressalta.

Joelson foi enterrado no cemitério São Sebastião, onde por mais de 10 meses o pai visitou o filho – Juliane Guerreiro/Paralelo

A confiança na polícia foi enterrada junto com o filho. “Eles deveriam estar aqui para nos defender e não para sair na rua fazendo o que eles querem, sair atirando em quem eles querem. Eles deveriam defender a sociedade, mas a vida não vale nada para eles. Essa que é a revolta, meu filho foi morto por uma polícia que deveria proteger e não matar ele. E ele atirou para matar mesmo, sem chance de ele se defender”, diz.

O gesseiro de 44 anos lembra do filho todos os dias e ressalta que era um adolescente que não o levava problemas, que trabalhava, estudava e cometeu o erro de estar dirigindo um carro roubado. “Se fosse um guri envolvido com alguma coisa tu até espera, mas não, era um guri que trabalhava até comigo, que estudava. Cometeu um erro e foi morto. Só quem perde é que sabe. Foi minha primeira e única perda, não tenho mais filho. É um pedaço que se foi”, conta com a voz embargada.

Ao falar da convivência com o filho, Joel lembra de uma frase que dizia todos os dias para ele. “Cada momento que estamos juntos é uma felicidade”. Mas, a felicidade de Joel foi arrancada naquele dia 26 de janeiro, agora, ele só pode lembrar desses momentos. “Aproveitamos muito, cada momento até os 15 anos dele. Parece que Deus estava preparando porque nós aproveitamos mesmo cada momento juntos, parece que estava preparando porque hoje ele não estaria mais aqui comigo”, conta.

Apesar de o arquivamento já ter sido determinado pela Justiça, a advogada Cynthia Pinto da Luz, que havia entrado com um pedido de habilitação em dezembro, afirma que está estudando o processo e sua evolução para tomar as medidas cabíveis e tentar reverter a decisão.

Comentários

comentário

Categorias
Reportagens