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O renascimento do Basquete de Joinville

Gestão voltada ao basquete aposta na identificação de jogadores joinvilenses e criados nas categorias de base para consolidar novo projeto

O despertador toca por volta das cinco da manhã e quando o ponteiro chega no número seis, a quadra do Centreventos Cau Hansen já está cheia. Atletas, fisioterapeuta, equipe técnica. Todo mundo acorda cedo todos os dias e o objetivo está bem claro para eles: fazer deste um projeto forte. Em outras épocas, a bola laranja bateu na tabela e não alcançou a cesta em Joinville. Foram tentativas que se enfraqueceram ao longo do tempo, deixando os amantes do esporte órfãos na cidade. Uma cidade que abraça seus times. Mas, desta vez, o Basquete de Joinville chega com um projeto mais tímido, com menos investimento, mas com uma vontade, carinho e amor que superam a casa dos bilhões. “Precisávamos esperar a mágoa com os projetos anteriores diminuir. Joinville tem o DNA do basquete, isso é muito forte aqui. E agora, voltamos e estamos criando um plano de gestão e negócio para se tornar sustentável a médio e longo prazo”, explica o idealizador do novo projeto, Kelvin Nunes Soares. É das mãos dele que parte a coordenação do Basquete de Joinville, que hoje é chamado de AABJ (Associação Amigos do Basquete de Joinville).

Basquete de Joinville briga, com outras cinco equipes, por vaga no NBB – Daniela Bonelli/Divulgação

E o carinho e amor, que se tornaram o combustível inicial do projeto, trouxeram muitos atletas para casa. Jovens e experientes: a combinação parece improvável, mas aos 26 anos o ala/armador Jefferson Socas prova não apenas no currículo, mas dentro de quadra, que é possível aliar juventude e maturidade. Criado nas quadras de Joinville, o armador saiu das categorias de base da cidade aos 15 anos. E ganhou o mundo. Com passagens importantes por clubes nacionais e internacionais, o Real Madrid é um dos nomes mais fortes – talvez o mais conhecido do público geral – na lista de times que o joinvilense já defendeu. Aos 16 anos ele embarcou para um pequeno clube da Espanha, onde fez história e chamou a atenção, sendo contratado pelo Real Madrid. Mas, nem todo o glamour das quadras internacionais o fez esquecer da cidade onde conheceu e iniciou no esporte. Hoje, ele é um dos nomes que tem a missão de consolidar o novo projeto. “Eu tinha que voltar para a minha cidade. Só aqui existe aquela emoção, aquela honra, o orgulho de representar a minha cidade”, conta.

Neste pontapé inicial, o Basquete de Joinville disputa a Liga Ouro, a Divisão de Acesso ao NBB (Novo Basquete Brasil). E desta vez, a competição é a maior da história, com seis clubes lutando por uma única vaga. Apesar de ser uma competição longa e muito disputada que só leva uma equipe à elite do basquete nacional, o ala joinvilense está confiante no resultado, graças a todo o trabalho e estrutura disponíveis aos atletas. “Temos totais condições de chegar ao NBB. Estamos em um começo de projeto e a estrutura já é muito boa. Tem muito time do NBB que não tem o que nós temos aqui”, afirma.

Essa estrutura também enche os olhos do ala/pivô Maxwell Ribeiro, de 25 anos. Para ele, que já jogou em Joinville aos 18 e hoje retorna “para casa”, o projeto já está começando do jeito certo. “O caminho é esse. Casa pequena, mas bem estruturada. O projeto está começando certo, caminhando passo a passo”, avalia. Um dos fatores destacados pelo ala, além da organização do projeto, é o trabalho dentro das quatro linhas. Com uma média de idade que gira em torno dos 21 anos, a juventude é uma das características principais da equipe e, para ele, essa oportunidade aos mais jovens reflete na entrega do time. “É um recomeço para todos. Somos uma equipe jovem que está ganhando uma oportunidade. É um time diferente, onde existe respeito entre a comissão e jogadores. Existe uma troca”, destaca. A avaliação de Maxwell é de que a equipe, por ser jovem, tem tudo para superar os adversários no que diz respeito a força física e a intensidade de treinamentos – a equipe treina todos os dias, em dois períodos, e no domingo pela manhã. Apesar de reconhecer a superioridade física, o ala alerta para o que ocorre em equipes jovens: erros. “É inevitável. Somos uma equipe jovem, forte, intensa, mas que pode pecar em alguns pontos justamente por isso. Porém, trabalhamos duro todos os dias, a vitória é uma consequência desse trabalho intenso”, diz.

“O caminho é esse. Casa pequena, mas bem estruturada. O projeto está começando certo, caminhando passo a passo”, afirma o ala Maxwell – Daniela Bonelli/Divulgação

O último jogo em casa surpreendeu jogadores e comissão técnica, que não esperavam um público que beirou os mil torcedores. “Eu não esperava essa recepção tão intensa. Joinville respira basquete”, comemora Maxwell. Com os pés no chão, o ala ressalta a importância da continuidade do projeto e, apesar de mirar a vaga no NBB, tem um objetivo ainda maior. “Trabalhamos forte para vencer, sempre, mas independentemente do resultado, o que importa é a continuidade do projeto, todo mundo quer isso”, ressalta.

A identidade dos jogadores com a torcida é um dos principais combustíveis para um projeto preocupado com o basquete na cidade, afirma o técnico George Salles. “Temos um grupo que vivenciou e vive o basquete, que tem uma identidade muito forte com a cidade, com as pessoas”, afirma.

Há dez anos, o pivô José Victor Jerônimo, o Zezão, já desenhava essa identidade com a cidade, com o basquete joinvilense, com os torcedores. Aos 15 anos, era nas quadras de Joinville que o garoto do interior de São Paulo dava seus primeiros arremessos. Hoje, uma década depois e muitos centímetros a mais, o garoto se transformou em um jogador de 2,08 metros de altura e muita experiência na bagagem. Com passagens por clubes do Brasil, Argentina e Espanha, ele retorna à cidade que o iniciou no esporte e garante que a estrutura montada aqui não deixa nada a desejar às outras pelas quais passou. “Tem muito time que sequer tem um fisioterapeuta, uma estrutura mínima, um vestiário”, conta. Ele destaca que, apesar de ser um projeto novo, muitos dos jogadores já se conhecem e já jogaram juntos, inclusive nas categorias de base em Joinville. “Somos jovens, mas rodados. Estamos tendo aqui uma nova oportunidade e não estamos dando um passo maior do que a perna”, avalia. Para o treinador George Salles, mais do que dinheiro, o que move o projeto é o amor ao basquete, a vontade de fazer dar certo. “O pessoal trabalha por amor ao basquete. Estamos tratando tudo com muito carinho”, conta.

Nome e rosto conhecido no universo do basquete em Joinville, Vitor Galvani é hoje o assistente técnico da equipe principal, além de trabalhar com os garotos das categorias de base. Conhecendo de perto e de dentro a realidade do esporte na cidade, ele sabe o quão exigente é o torcedor joinvilense e, ao mesmo tempo, o quanto o público se identifica com atletas formados na cidade. Estes são, para ele, fatores fundamentais para impulsionar os jogadores dentro de quadra. “O torcedor joinvilense é exigente e vejo uma vontade muito grande de torcer mesmo, de ver o time bem. Eles estão muito identificados com os moleques que estão vestindo a camisa do time porque não são apenas jogadores que vem aqui para ganhar dinheiro, são jogadores muitos nascidos aqui, outros criados aqui. Isso é importante demais para o torcedor joinvilense”, avalia. O assistente destaca ainda o quanto pisar em quadra defendendo Joinville é importante e era um sonho para muitos dos atletas que compõem o elenco. “Para eles sempre foi um sonho jogar por Joinville, jogar com colegas, amigos mesmo e com a estrutura que temos aqui. Não estamos brigando por coisa pouca”, ressalta.

Um passo de cada vez

Com apenas um patrocinador oficial, o Basquete de Joinville busca se reestruturar através da profissionalização do projeto. Segundo o idealizador desta nova fase, Kelvin Nunes Soares, um plano de gestão e negócio já está sendo desenhado para que o clube se torne sustentável. Hoje, além do patrocinador, a AABJ (Associação dos Amigos do Basquete de Joinville), conta com parcerias e convênios para subsidiar toda a estrutura em torno do clube. “Essas parcerias são fundamentais para voltar e se firmar”, afirma. Entre as metas, o aumento do número de patrocinadores através da Lei de Incentivo ao Esporte do Governo Federal. Segundo Kelvin, já há parcerias sendo trabalhadas dentro desta modalidade.

Para a participação na Liga Ouro, explica, é necessário ter um orçamento mínimo de R$ 500 mil que servem como garantia de que o clube irá honrar todos os compromissos durante a competição. O Basquete de Joinville apresentou um valor superior ao exigido pela Liga Nacional de Basquete. “O custo total de participação na Liga Ouro é de R$ 800 mil”, conta. O objetivo é consolidar e manter o projeto, mas a participação no NBB da próxima temporada seria a cereja do bolo e, para isso, Kelvin estima que o valor necessário para custear a temporada seja de, pelo menos, R$ 3 milhões. “O mínimo são 3 milhões de reais, mas se formos falar em valores ideais, saltamos para R$ 5 milhões”, diz.

Para ele, a principal diferença de gestão deste projeto para os demais que não tiveram vida longa e duradoura é o foco único e exclusivo no basquete. “É uma gestão voltada aos negócios e não às pessoas. Voltada ao basquete e não a promoções pessoais. O basquete é de todos”, enfatiza. Kelvin avalia ainda que a equipe chega ao NBB em curto e médio prazo. “Ano que vem, com certeza”, completa.

Para chegar ao NBB na próxima temporada, o Basquete de Joinville precisa superar outras cinco equipes que também disputam a Liga Ouro. Botafogo, Brusque, Contagem Towers Basquete, Santos (AP) e Basquete Blumenau, que foi o último adversário antes do jogo da noite desta terça (28), contra o Brusque. Na tabela de classificação, a equipe comandada por George Salles figura entre as três primeiras quando se avalia o aproveitamento da equipe. Atualmente, Joinville tem 66,7% de aproveitamento em três jogos disputados.

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