Reportagens

Família de adolescente morto pela PM questiona arquivamento do caso

Joel Andrade questiona o papel da polícia todos os dias depois que o filho, Joelson Andrade, foi morto pela Polícia Militar após uma perseguição. Hoje, mais de um ano depois, ele luta para que o caso não seja arquivado, como pede o Ministério Público

A dor de perder o único filho está sendo administrada todos os dias. Voltar para casa, visitar os familiares, o bairro onde seu menino vivia pelas ruas, seja para ir à escola, trabalhar ou jogar conversa fora com os amigos, foi tarefa difícil para o gesseiro Joel Andrade, 44 anos. Tão difícil que ele não suportou e hoje mora em Ituporanga, no Vale do Itajaí. A cidade, com pouco mais de 24 mil habitantes, se tornou um refúgio depois que o filho Joelson de Andrade, de 15 anos, foi morto após uma perseguição policial no dia 26 de janeiro de 2016.

Joelson foi enterrado no cemitério São Sebastião, bairro Iririú – Juliane Guerreiro/Paralelo

Naquela terça-feira de janeiro, Joel recebia uma ligação que reaparece diariamente em sua lembrança. Do outro lado da linha, a mãe de seu filho perguntava pelo adolescente, que não havia dormido em casa. Joelson morava com a mãe, mas era muito ligado ao pai. Mas nem o pai, nem a mãe jamais viram o adolescente com vida depois que ele saiu de casa, na noite anterior, para dar uma volta com os amigos. Ele foi vítima de homicídio em decorrência de ação da Polícia Militar e entrou, naquela madrugada, para uma estatística fria. Em 2016, Santa Catarina registrou 59 mortes cometidas por policiais militares em serviço, quatro delas aconteceram em Joinville e uma dessas mortes é a do filho de Joel. “Eu vivia pra ele. É difícil, vou te dizer que é muito difícil”, lamenta. Antes de se mudar, foram cerca de 11 meses fazendo uma visita que nenhum pai gostaria. Todos os dias, Joel seguia de casa para o cemitério São Sebastião, no bairro Iririú, zona Leste de Joinville. Era lá, entre centenas de túmulos, que o pai visitava o filho.

 

Joel conta que o filho o ajudava no ofício de gesseiro desde os 13 anos e fazia “bicos” de chapeiro em lanchonetes no bairro Comasa, onde morava com a mãe. Para o pai, os tios e os primos, a imagem de Joelson é de um garoto carinhoso, educado e que não chegava à casa dos familiares sem um beijo em cada um. “Ele vinha aqui sempre, tão educado e carinhoso. Chegava e sempre dava um beijo na testa dos tios. Era um guri muito bom, trabalhava. Era uma criança ainda e um filho pra mim. Agora, temos que conviver com a dor, mas queremos justiça”, garante Cleonir Bublitz, tia do adolescente, enquanto mostra uma foto de Joelson. Justiça é o que Joel procura desde o dia em que enterrou seu filho único. “Eles precisam dar uma explicação pra gente. Quem atirou no meu filho vai pagar se ficar preso. Eles estão aqui pra proteger a gente. Isso não pode continuar ou daqui a pouco tem outro pai e outra mãe chorando”, ressalta.

Versão policial diverge da versão de testemunhas

Nestes 420 dias que se seguiram desde que Joelson foi morto, com dois tiros na cabeça – um deles na nuca – a investigação passou por quatro delegacias até chegar ao Ministério Público que pediu o arquivamento do caso no dia 26 de outubro do ano passado. Antes disso, o inquérito policial militar instaurado para apurar a responsabilidade dos policiais envolvidos na ação já havia concluído que “não foram verificados indícios do cometimento de crime militar ou comum ou transgressões disciplinares”. Segundo o documento, “trata-se de ocorrência envolvendo intensa troca de tiros entre o menor e os policiais militares”.

A versão policial e das quatro testemunhas – dois maiores e dois menores de idade – que estavam no veículo começam a se chocar quando os policiais afirmam que o adolescente estava armado e teria apontado a arma diversas vezes contra a viatura, inclusive durante a perseguição. Um dos adolescentes disse à reportagem do Paralelo que ouviu, durante a perseguição, de 6 a 7 disparos contra o veículo Peugeot 206, preto, conduzido por Joelson e nega que qualquer um dos cinco ocupantes estivesse armado. “Ele correu porque sabia que iria apanhar. Ele disse durante a perseguição ‘a gente vai morrer’. Ele estava com medo, por isso correu”, conta.

Joelson foi morto com dois tiros na cabeça disparados pela Polícia Militar após perseguição em janeiro de 2016 – Reprodução

Depois da perseguição, que iniciou no bairro Aventureiro, Joelson perdeu o controle do veículo e colidiu contra uma auto elétrica na esquina das ruas Rio das Antas e Praia Grande, no bairro Comasa. Novamente as versões não caminham na mesma direção. Segundo os policiais, o adolescente desceu do carro armado e tentou disparar contra os agentes, que revidaram. Os ocupantes do veículo negam que o adolescente estivesse armado e, consequentemente, feito menção a atirar contra os policiais. “Eu vi um policial dando um tiro nele, chegando perto e atirando mais uma vez”, declarou uma das testemunhas em depoimento.

De acordo com o laudo pericial, os dois disparos atingiram a cabeça de Joelson. Um na região póstero-lateral esquerda, fraturando o crânio e perfurando o cérebro, ficando alojado na face, pouco abaixo do olho esquerdo. O outro atingiu a região da nuca, com dois estilhaços alojados dentro da boca. Ainda segundo o laudo, ambos os disparos tiveram uma trajetória posterior para anterior, ou seja, os projéteis entraram por trás da cabeça do adolescente e foram efetuados a uma distância maior que 80 centímetros.

Assinado em 4 de março de 2016, o laudo pericial conclui ainda que Joelson estava de costas quando foi atingido, enquanto a versão policial dá conta que ele teria apontado a arma para os policiais, que revidaram. “Por fim, as lesões constatadas na cabeça e na nuca do cadáver indicam que o indivíduo alvejado se encontrava de costas em relação ao(s) atirador(es)”, aponta o documento assinado pelo perito criminal Tiago Petry.

Ainda de acordo com o laudo pericial, no local foram encontrados quatro estojos componentes de munição, todos referentes a pistola .40, a arma utilizada pelos policiais. A arma apresentada pelos agentes como a suposta arma que estava em posse de Joelson é um revólver calibre 38.

 

Outro dado que consta no laudo se refere a perfurações nos veículos, tanto na viatura, quanto no automóvel conduzido por Joelson. Segundo o documento, a viatura possui duas perfurações no para-brisa, do lado do motorista, provocadas por disparos de arma de fogo de dentro do veículo. Já o Peugeot 206 tem oito perfurações no para-choque, cinco no lado direito e três no lado esquerdo.

Segundo conferência na Central de Plantão Policial após a ocorrência, pelo menos 19 disparos foram efetuadas pelas três pistolas .40 portadas pelos policiais militares que perseguiram o veículo conduzido pelo adolescente.

Apesar de o veículo ter registro de furto – havia sido furtado na segunda-feira (25) – o pai garante que o filho não participou da ação e não sabia que o carro era furtado. O adolescente que estava no carro e conversou com o Paralelo também reforça a versão de Joel. “Os dois maiores falaram que tinham emprestado o carro pra dar uma volta”, afirma. Ele conta ainda que foram agredidos no momento da abordagem, mesmo sem sequer sair do carro antes que os policiais mandassem. O adolescente afirma que houve uma “comemoração” por parte dos policiais após a morte de Joelson. “Na delegacia deram até parabéns pra eles e eles falaram sem medo que tinham matado um à queima-roupa”, diz.

O garoto, que era vizinho de bairro de Joelson, conta ainda que, após a morte do amigo, uma viatura passou pelas ruas do bairro, o encontrou e ameaçou. “A viatura me parou e um deles disse assim ‘tem que olhar pro céu e agradecer. A morte dele foi merecida porque a gente veio lá do Aventureiro perseguindo vocês’”, afirma.

Hoje, para o seu Joel, que saiu de Joinville tentando aplacar a revolta, polícia não é mais sinônimo de segurança, ao contrário. “Agora, polícia pra mim não existe mais. Como confiar na polícia? Que justiça é essa que nós temos que, ao invés de proteger, mata?”, se pergunta diariamente.

Assinado pelo promotor Ricardo Paladino, o pedido de arquivamento afirma que “não há prática de crime por parte dos policiais militares” e que “não havia outro caminho senão o uso da força para contê-lo, não indicando abuso na atuação policial”. O documento assinala ainda que os policiais agiram para “repelir injusta agressão iminente”, ressaltando que Joelson teria tentado por várias vezes efetuar disparos contra os policiais.

Agora, Joel espera que a Justiça acate o pedido de habilitação feito pela advogada Cynthia Pinto da Luz para que ela possa representá-lo no processo e evitar que o caso seja, definitivamente, arquivado.

Comentários

comentário

Categorias
Reportagens