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Joinville: uma “história oficial” que seleciona fragmentos

Então, no dia 9 de março de 1851, a barca Colon chegou à Colônia Dona Francisca trazendo os imigrantes germânicos, aqueles que desbravariam uma terra inóspita, de mata fechada, e que graças ao suor do seu trabalho e ao seu espírito empreendedor fariam daquelas terras ainda inabitadas uma grande Joinville.

A versão de pioneirismo dos imigrantes germânicos é considerada a “história oficial” da criação do município. Foram eles os homenageados na comemoração pelo aniversário de Joinville no último domingo (5), assim como é em celebração a eles o museu no Centro da cidade. A valorização aos imigrantes é tanta, que ao invés de se comemorar a criação de Joinville, marcada pelo dia 15 de março de 1866, quando o município foi desmembrado de São Francisco do Sul, celebra-se o dia em que os imigrantes germânicos puseram os pés na antiga Colônia Dona Francisca.

O fato é que muito antes de os primeiros imigrantes alemães, suíços e noruegueses desembarcarem no litoral catarinense trazidos pela barca Colon – que nunca chegou à Joinville de hoje, mas sim a São Francisco do Sul – luso-brasileiros e negros já moravam aqui, assim como indígenas que também habitavam essas terras. “Os registros mostram que no final do século XVIII já havia uma população habitando o que hoje é Joinville. Nós temos os documentos de sesmarias, que eram concessões que a corte portuguesa, à época, e depois o império do Brasil, davam para quem quisesse cultivar essas terras devolutas. Isso principalmente na região onde hoje é o Cubatão, Itaum, Espinheiros e Paranaguamirim”, afirma o historiador Dilney Cunha. Além do registro destas sesmarias, um mapa elaborado em 1846 por Jerônimo Coelho, contratado para demarcar o lote do príncipe e da princesa, mostra diversos pontos que marcam as construções que haviam na região, principalmente às margens de rios e da Lagoa do Saguaçu. “Esses pontinhos mudam toda uma percepção que se tinha da ocupação do território de Joinville porque eles indicam essas várias construções onde, certamente, moravam várias famílias luso-brasileiras com escravos. Muitos pontinhos são engenhos, construções com outras finalidades além das moradias, mas, tirando uma média de oito a dez pessoas por família, incluindo também escravos, se tem uma população entre 300 e 500 pessoas, o que é considerável para quem dizia que não havia ninguém aqui, que foram os imigrantes que desbravaram. É um número para se rever esse conceito de terra desocupada”, ressalta Cunha.

Mapa elaborado por Jerônimo Coelho em 1846. Pontos representam construções – Reprodução/Arquivo Histórico de Joinville

Outra questão geralmente “apagada” da história oficial são os conflitos entre imigrantes germânicos, negros, indígenas e famílias luso-brasileiras. “O que acontece é que a história oficial procura mascarar os conflitos e mostrar um desenvolvimento harmônico da história e da ocupação aqui, mas quando a gente pesquisa mais a fundo vê que esses conflitos aconteceram”, conta o historiador. Um dos primeiros desentendimentos, segundo Cunha, se deu pela proibição do uso do braço escravo pelos imigrantes de acordo com as regras da sociedade colonizadora e, mais tarde, conforme decreto publicado pelo governo brasileiro. “O grupo luso já usava há muito o tempo o braço escravo. Então a gente tem relatos de escravos que fugiam por maus tratos e queriam se estabelecer na colônia, o que não era permitido”, diz. Segundo Cunha, embora não haja registros, justamente por causa dessa proibição, há casos conhecidos do uso do trabalho escravo por imigrantes.

Para a historiadora Valdete Daufemback, a teoria sobre a superioridade germânica também foi fator determinante nos conflitos entre os grupos que habitavam Joinville naquele tempo. “Na academia do Rio de Janeiro, na época, começou-se a discutir a superioridade germânica. Então os alemães que vieram para cá foram considerados superiores e isso deu uma aura de grandeza aqui para o Sul. Eles podiam vir para cá e expulsar os índios da região, já que eles não eram dotados de inteligência, como diziam eles. Mas isso não entra na história. Matar os índios era tão natural porque eram pessoas que não tinham grande perspectiva, não tinham influência, não eram considerados gente, então podia matar”, argumenta. Segundo a historiadora, os primeiros clubes de tiro criados em Joinville tinham a intenção de servir contra os índios. “Depois é que virou clube de divertimento. Nós tínhamos muito conflito com indígenas, mas essa parte as pessoas não gostam de falar”, avalia Valdete. Ela conta que era comum a segregação entre os germânicos e outros povos que viviam no município em espaços hoje públicos da cidade. “Tinha uma praça, onde hoje é a Nereu Ramos, que era ocupada pelos alemães. Ela era cercada, tinha um portão, e só quem podia entrar lá eram os alemães. Quem não era, não podia entrar nem se misturar”, afirma.

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Segundo Cunha, o fator cultural tem grande importância no distanciamento entre os grupos. “Os imigrantes descrevem esse primeiro impacto, esse choque que tiveram quando desceram em São Francisco do Sul e viram essa população diferente, com hábitos diferentes. Viram os negros, que muitos nunca tinham visto, e ao saberem que eram escravos aquilo chocou também, porque eles vinham de uma cultura que já havia abolido a escravidão há muito tempo. Então eles relacionavam isso com atraso nessa região, que não desenvolveu aptidão para o trabalho porque tudo era resolvido pelos escravos e a população lusa em geral era preguiçosa, segundo eles, porque deixava tudo na mão dos escravos”. Diferente, de acordo com Cunha, da cultura germânica, voltada ao trabalho. “Esse imigrante tem uma ideologia de que é o progresso material, o desenvolvimento econômico que vai trazer o bem-estar, a salvação, inclusive. Há um lado espiritual, religioso. Não é à toa que 90% desses imigrantes são luteranos”, afirma.

Para Valdete e Cunha, os traços desses conflitos podem ser vistos ainda hoje na cidade. “Esses contatos interétnicos vão resultar em uma certa divisão do território, que ainda hoje a gente percebe. Há uma certa predominância das características luso-brasileiras para as partes Sul e Leste de Joinville, onde estavam as sesmarias, e uma certa concentração de descendentes daqueles imigrantes germânicos no Centro, regiões Norte e Oeste”, conta Cunha. “Na zona Sul, desde a Procópio Gomes até o Morro do Amaral, passando pelo Ulysses, Paranaguamirim, toda essa área que beira o mar, havia muitos portugueses pescadores e negros morando, assim como quem quase não tinha posses também ia para aquela área, que era mais barata. Quem tinha posses não queria se misturar com esses negros nem com as comunidades ribeirinhas de pescadores e aí já estava delimitado o poder econômico, a valorização de um lugar e de outro”, avalia Valdete.

Ulysses Guimarães é o bairro que concentra a menor renda média mensal de Joinville. Adrieli Evarini/Paralelo

Os bairros Ulysses Guimarães, Jardim Paraíso e Paranaguamirim são os que têm o menor rendimento médio mensal de Joinville, de acordo com a publicação “Joinville Bairro a Bairro 2017”. Os moradores desses bairros ganham, em média, 1,14, 1,16 e 1,17 salários mínimos, respectivamente. Enquanto isso, o bairro com a maior média salarial é o Atiradores com 6,46 salários mínimos. O índice é baseado no Censo 2010, época em que o salário mínimo era R$ 510.

Início e reprodução de uma “história oficial”

A historiadora Valdete Daufemback conta que as pesquisas feitas sobre a história da colonização joinvilense anteriores à década de 80, geralmente, não ficavam no município. “O fato de Joinville não ter uma universidade e a FURJ, à época, ter nascido para atender a uma demanda das empresas fez com que não se desse valor à pesquisa. Então, algumas pesquisas que foram feitas antes dessa ‘história do vencedor’ ficavam apenas nas faculdades de outros lugares, como Florianópolis”, revela. Foi apenas a partir da década de 80 que a história da cidade começou a ser contada por aqui, às vezes com o incentivo de indústrias que pagavam pelas obras. “Se foi a empresa que pagou para escrever, para fazer o levantamento desses dados, ela vai dar uma visão, uma narrativa”, avalia Valdete. Para ela, o fato de a pesquisa começar apenas na década de 80, em uma cidade já industrializada e cem anos após a chegada dos imigrantes germânicos, também determinou a maneira como essa história oficial foi construída. “Uma coisa é você escrever dez, quinze ou mesmo cinquenta anos a partir da colonização, quando a história ainda está viva naquela geração. Outra coisa é escrever cem anos depois, com uma outra realidade, outra perspectiva, que já era mais industrial. As pessoas vão escrever pautadas naquele momento olhando para o passado, então vão apagar da memória aquilo que não consideram interessante, que não é bom porque vai contar fraquezas, conflitos”, completa.

Valdete relembra que os imigrantes germânicos enfrentaram diversas dificuldades ao chegarem à então Colônia Dona Francisca, ludibriados por uma propaganda enganosa feita na Europa. Eles recebiam desenhos de casas, rios, barcos, uma estrutura que nada tinha a ver com o que enfrentariam em solo brasileiro. “Nas cartas, as pessoas contavam que ficavam semanas procurando a casa que viram na gravura e não encontravam”, diz. É por isso que, para o historiador Dilney Cunha, não se deve desmerecer a importância dos imigrantes germânicos. “Não se deve tirar o mérito desses colonos que realmente foram castigados na Europa pela crise, miséria, que vieram iludidos por uma propaganda enganosa. Eles se meteram em várias dívidas para custear a viagem, a construção da casa, mantimentos. Jamais se pode desmerecer essas pessoas que enfrentaram muita dificuldade no início. Mas também não dá para romantizar. A história não é um romance que fala sobre grandes heróis, como se eles realmente tivessem feito tudo sozinhos. A gente tem outros protagonistas tão importantes quanto o imigrante”, afirma. Para Cunha, abraçar essa história oficial foi conveniente para uma parte de gestores que poderia se apresentar como herdeira de uma gente trabalhadora, além de manter um status quo de cidade voltada ao trabalho, à ordem e à disciplina. “É uma versão elaborada por uma elite em grande parte descendente daqueles imigrantes que são enaltecidos, é como se contasse a própria história, invisibilizando os outros grupos, assim como as contribuições que eles trouxeram”, afirma.

Os traços da borracha passada na participação de outros grupos na construção de Joinville são visíveis ainda hoje, seja na estrutura da cidade ou na falta de representatividade destes povos esquecidos. O Mercado Municipal, por exemplo, deixou de ter traços açorianos na década de 80 para receber as características da arquitetura germânica, enquanto a falta de uma bibliografia expressiva sobre a participação dos outros protagonistas da história joinvilense traz invisibilidade ainda hoje. Para Felipe Cardoso, integrante do Movimento Negro Maria Laura, a ausência da participação do negro na história oficial da cidade influencia o presente e o futuro dessas pessoas. “A forma de contar uma história interfere em como a cidade se organiza. Quando você invisibiliza uma pessoa, você tira a voz dela. Aqui se vê a ausência de negros na política, em veículos de imprensa e cargos de liderança em empresas, ao mesmo tempo em que se vê os negros nos bairros periféricos, onde a taxa de desemprego é elevada, assim como a criminalidade”, avalia. Negro, Cardoso foi, por diversas vezes, questionado sobre a sua origem joinvilense. “As pessoas perguntam ‘mas você é negro e nasceu em Joinville?’. A ausência da importância histórica faz com que o negro não se veja como protagonista e nem como alguém daqui”, reflete.

O Mercado Municipal de Joinville foi construído com características da arquitetura açoriana, como os arcos. Na década de 80, a estrutura foi demolida para a construção do novo mercado em estilo germânico. Fonte: Arquivo Histórico de Joinville

Para Cunha, o muro pichado com a frase “o Haiti não é aqui” na Avenida Getúlio Vargas, em 2016, e a manifestação de intolerância contra a candidata negra à rainha da Festa das Flores Haeixa Pinheiro, em 2015, são reflexos de como a história joinvilense tem sido contada. “Onde você vai encontrar explicação para esse tipo de comportamento? Isso não é uma coisa isolada. Perguntas como ‘você é de origem?’, ‘é de que família?’ têm embutido um preconceito muito forte que vem desde o período colonial”, argumenta.

Para Valdete, essa história oficial será reproduzida enquanto não houver instituições de ensino e professores preparados para abordar o tema. “Toda a parte cultural de uma cidade tem muito a ver com a seriedade de suas instituições de ensino, de como abordaram esses temas. Se não, fica um estereótipo que interessa aos donos do capital, à manutenção do trabalhador e não ao desenvolvimento dele”, explica. Para ela, também será preciso coragem para afrontar uma história contada há anos. “Em Joinville tem que ter coragem para falar das coisas, para mudar, porque as pessoas que falam aquilo que está além do senso comum, além do que diz a capa da lista telefônica, não são bem quistas. Nós criamos uma Joinville estática, ordeira, trabalhadora e feliz, é esse o estereótipo que a gente tem. É uma reprodução que existe e vai levar tempo até conseguir mudar isso”, reflete.

Hoje, no “Joinville – Cidade em Dados”, publicação da Prefeitura de Joinville, admite-se que “a diversidade étnica foi uma característica do processo colonizador em Joinville”. Porém, os homenageados continuam sendo os mesmos.

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