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Entenda como surgiram os rótulos de cidade dos príncipes, flores e bicicletas reproduzidos em Joinville

Cidade dos príncipes, das flores e das bicicletas. Os ”títulos” de Joinville estão no hino, em comerciais que estampam as paredes de shoppings centers, em propagandas de televisão. Reproduzi-los já faz parte da vida dos joinvilenses, ainda mais no aniversário da cidade. Mas, como eles surgiram?

“Jornal alemão escreve sobre Joinville: a cidade das bicicletas”, era assunto em uma edição de 1973 do Jornal de Joinville – Reprodução/Arquivo Histórico de Joinville

Um príncipe que nunca esteve em Joinville

As terras que formavam a antiga Colônia Dona Francisca, e que abrangiam Joinville, São Francisco do Sul e outros municípios da região, faziam parte do dote cedido pela família da princesa Francisca Carolina quando ela subiu ao altar com o príncipe francês François Ferdinand Philippe, em 1843. Seis anos depois, a família real francesa enfrentava grave situação financeira e, por isso, o príncipe vendeu uma parcela das terras para a Sociedade Colonizadora de Hamburgo, que trouxe a Joinville os primeiros imigrantes germânicos. Apesar de ter recebido o nome da região de origem do príncipe, é aí que acabam os laços entre o casal e a cidade catarinense. O historiador Dilney Cunha explica que, ao contrário do que se pensa, o casal nunca pôs os pés na cidade. “Eles nunca estiveram aqui e, até onde se sabe, nunca tiveram a intenção de vir. Não há nenhuma menção deles à cidade, às terras sim, mas nenhum comentário sobre como essas terras passaram a ser colonizadas, nenhuma manifestação de admiração. O maior interesse era ter o lucro, essas terras eram um pedacinho a mais do patrimônio deles”, diz. Para a historiadora Valdete Daufemback, a história oral, sem pesquisa, legitimou a ideia de que o casal teria visitado a cidade. “A partir dos anos 70, com o boom econômico, acharam interessante criar uma secretaria de turismo. Naquela época, pensava-se em como transformar Joinville num ambiente de turismo, como vender a cidade, e então buscaram a ideia antiga de cidade dos príncipes”, afirma. Segundo ela, o Museu Nacional da Imigração e Colonização de Joinville ajudou a difundir a ideia da vinda do casal à cidade. “Lá haviam as peças e diziam ‘aqui era a caminha da princesa’, ‘aqui é o quarto da princesa’, então tudo o que tinha lá dentro eles diziam que era do príncipe e da princesa e isso tornou-se uma história oral porque na escrita não há em nenhum lugar, documento ou livro que diga que eles estiveram aqui”, argumenta.

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A “cidade dos príncipes”, termo que ganhou espaço no hino municipal, nunca os recebeu. “Toda cidade constrói um passado para si, uma história oficial, e nessas representações incluíram a figura do príncipe e da princesa, em uma interpretação minha, para dar uma aura mais nobre e bonita à cidade, para que se associasse a coisas nobres, belas, civilizadas”, avalia Cunha.

A opinião de um presidente

Outro título concedido a Joinville, e que também é entoado no hino municipal, é o de “cidade das flores”. Cunha explica que o termo resulta de uma adaptação da fala de Afonso Pena, primeiro presidente do Brasil a visitar a cidade, durante a inauguração da estação ferroviária, em 1906. “Ele comentou que Joinville se parecia com um jardim e, certamente, foi a partir dessa fala dele que, ao passar do tempo, foi se firmando essa alcunha. Há relatos que mencionam que ele teria dito que era o jardim do Brasil, algo nesse sentido. Mas de forma alguma ele disse que era a cidade das flores, isso foi ampliado depois para trazer lucro para a cidade, trazer turistas”, fala.

De fato, segundo o historiador, na época era um hábito de muitas famílias plantar flores e cultivar jardins. Mas, pelo que se sabe, o presidente teria visitado apenas o entorno do centro da cidade.

Quando as zicas tomavam conta das ruas

O título de “cidade das bicicletas” parece o mais próximo da realidade joinvilense, mas de outra época. Se hoje as magrelas disputam espaço com os carros e a insegurança nas ruas da cidade, na década de 70 elas reinavam soberanas, principalmente na saída das fábricas. “Com o crescimento da população e a instalação de muitas indústrias, a bicicleta passou a ser o meio mais prático e barato para se locomover de casa para o trabalho. Então, nesta época a cidade conheceu um crescimento não só do número de pessoas, mas de bicicletas também”, conta Cunha. Um levantamento realizado por uma consultora da administração pública, em 1972, revela que naquele ano havia mais pessoas se movimentando de bicicleta do que com automóveis em ruas como a Iririú, Florianópolis e Monsenhor Gercino.

Saída dos trabalhadores da Fundição Tupy, em 1989 – Everton Bressan/Arquivo Histórico de Joinville

Em 1985, o pesquisador Ilmar José Pereira Borges apresentou uma tese à UFRJ sobre as viagens ao trabalho com o uso da bicicleta em Joinville. Ele entrevistou 196 pessoas nos bairros Boa Vista e Iririú para saber quem eram as pessoas que usavam a bicicleta nos dois bairros. Os resultados da pesquisa mostraram que 85,7% dos entrevistados eram homens, 53,6% tinham renda familiar de um a dois salários mínimos, 56,6% conviviam com mais de cinco pessoas na mesma residência, 81,1% tinham apenas o nível primário e 73,8% não podiam escolher outro modo de transporte (58,7% achavam caro o preço da tarifa do transporte coletivo). Já naquela época, quando o fluxo de carros era menor, 69,9% dos entrevistados reclamavam sobre a falta de pistas próprias para bicicleta na cidade.

Segundo Cunha, não há referência de quem e quando se deu esse apelido à cidade, mas em 1973 o Jornal de Joinville já anunciava o título de Joinville. A época da industrialização também rendeu outro título ao município, o de “Manchester Catarinense”, em alusão à cidade da Inglaterra. “É uma outra característica que se colocou para engrandecer Joinville, também na ideia de transformá-la num empreendimento turístico”, avalia Valdete.

Além do Museu Nacional da Imigração e Colonização, Joinville reforça seus títulos com o Museu da Bicicleta e a Festa das Flores, que ocorre anualmente na cidade.

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